quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Fora de visão: Enxergar além do que os olhos podem ver.


Um dia desses fui levada despretensiosamente a pensar mais uma vez em psicoterapia. Foi bastante interessante como as coisas ocorreram. Pensando em Jung, diria que não foi coincidência. Depois de certo tempo finalmente me propus a ler um artigo no blog de meus professores Joaquim Cesário e Marcos Creder, o literalMENTE (http://literalmente-literalmente.blogspot.com.br), intitulado "Raízes psicológicas da psicoterapia: Anatomia de uma relação" de autoria do primeiro. Porém, antes de lê-lo fui presenteada pelo meu amigo Lucas Garcia com um belo curta metragem chamado Out of Sigth. A partir disso fiquei impulsionada a escrever um pouco mais sobre psicoterapia.

Fiquei encantada com a trama do curta e decidi juntá-lo às ideias do texto e organizar sob meu ponto de vista. Para tal é necessário falar um pouco sobre o vídeo, no entanto indico ao leitor que o veja antes, por isso aqui está o link do mesmo: http://www.youtube.com/watch?v=x6dnqnsdBOg&feature=plcp. Ele foi o trabalho de conclusão de curso de três estudantes da Universidade Nacional de Artes de Tawain e relata a história de uma jovem cega que após ser roubada e largada pelo seu cão guia vê-se sozinha e com o mundo todo a sua frente para ser descoberto. Ela empreende uma busca ao seu animal de estimação e instrumento facilitador de locomoção e socialização, e nessa aventura descobre um universo encantador. Passa a ter experiências novas e prestar atenção a tudo que a rodeia. Os seus sentidos são despertados e sua imaginação pinta o mundo a maneira que lhe parece ser correta. Ela passa a vivenciar as coisas de forma intensa, porém no momento que reencontra seu cachorrinho tudo volta ao que era antes: as cores se apagam, a sua criatividade se dissipa e a cidade assume a sua forma original. 


 Com o enredo do vídeo podemos discutir dois pontos que acredito serem primordiais em psicoterapia. O primeiro diz respeito ao desenvolvimento da independência do cliente sobre a figura do psicoterapeuta e o segundo se refere aos profissionais que se escondem atrás de técnicas e permitem que estas sejam a sua bússola. 

Quando se busca uma psicoterapia se vai atrás de respostas. Respostas que possam causar mudanças, respostas que consigam acalmar a tempestade emocional que inunda cada um. Existe a crença que aquele que está ali nos “esperando” possui as soluções para as aflições daqueles que o procura. Algumas vezes a esperança é depositada mais na figura do psicoterapeuta do quê em si mesmo. Inicialmente esse processo é interessante, pois colabora com a criação do vínculo terapêutico e na confiabilidade do cliente. No entanto, não se deve cultivar tal comportamento. Para maiores esclarecimentos, profissional algum possui a fórmula mágica que irá transformar a vida do solicitante. Não há modelos. Não existe nenhum livro de cabeceira que dê a nós, psicólogos, o dom de transmutar os problemas alheios em lembranças engraçadas e em material de experiência de vida, apesar de ter aqueles que carregam tal ilusão.
 
Retomando então ao curta citado a cima, quero dizer que alguns indivíduos entregam aos terapeutas o poder de guiarem suas vidas. Deixam-se ser levados pelos conselhos e opiniões bondosas dos profissionais que lhe acolhem, o que é um engodo de ambas as partes. Tais sujeitos dependentes delegam a habilidade para lidar com seu dia-a-dia e esperam ansiosamente até a próxima sessão onde poderão pensar sobre seus assuntos. A responsabilidade pela construção de sua história foi deixada em alguma esquina da cidade ou em algum cantinho do consultório terapêutico. Deixam de experimentar o mundo da sua forma singular e passam a perceber os fatos com os olhos dos profissionais que os atendem.

Não digo que agir contrário a essa postura impedirá que obstáculos surjam no caminho, em ambas as posições não há seguranças, os dois modos são arriscados, afinal de contas viver é um risco. Porém alguns podem dizer que carregar sobre os ombros suas próprias decisões é muito desgastante. Concordo. No entanto o enriquecimento pessoal e o prazer irremediável de ser o principal autor de sua história, não tem preço. É uma experiência assustadora, admito, mas é fascinante descobrir-se. Vale a pena tentar.

 

Quanto ao segundo ponto, a instrumentalização da psicoterapia, pode-se afirmar que esta cega o profissional e o impossibilita de fornecer o melhor de si para o cliente. A ferramenta mais importante que o profissional possui é a sua própria subjetividade. A maneira como o cliente o toca, a relação estabelecida, trabalhar no que há entre e não unilateralmente, respeito pela singularidade e a criação de um vínculo de confiança são os instrumentos mais válidos no setting terapêutico. Um psicoterapeuta que não leva em consideração as repercussões que ocorrem dentro de seu ser terá dificuldade de escutar o outro e de possibilitar que o mesmo se escute. Terapia não se desenvolve em um indivíduo, é uma troca que ocorre dentro de uma relação assimétrica, porém sincera e coerente com suas finalidades.

Teoria e técnicas são importantes. São recursos sérios que moldam e possibilitam a profissionalização. No entanto, como diria Jung em sua célebre citação: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Assim, observando o curta, posso dizer que o psicoterapeuta que se refugia em técnicas bem estruturadas e pratica terapias instrumentalizadas, vazias de interação, perde a criatividade e torna o espaço terapêutico um vácuo onde o sujeito fica em segundo plano e o que se vê são apenas os jogos sociais e a superficialidade do ser que não transmite a verdade do indivíduo. 

A visualização do curta desperta, ao menos em mim, diversos sentimentos e um questionamento: Até que ponto o cão guia estava colaborando com a garotinha? Refletir sobre o nosso papel com o outro é fundamental, e digo para aqueles que se vangloriam quando escutam da boca de algum profissional que não precisam se responsabilizar com as escolhas e o processo do cliente, que não cabe a nós nos devorarmos com os caminhos tomados pelo paciente: Parem e pensem qual a nossa função e, principalmente, não se acomodem com essa defesa. A responsabilidade é ainda maior devido a isso.



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A minha perda: em busca de um sentido.

Fico aqui procurando as palavras certas para expor o que estou sentindo. Não sei por onde começar. Não sei o que fazer. A pergunta que ficou rodeando minha cabeça foi: Então é assim que é a morte? Não dá para acreditar na simplicidade dos fatos. Como pode ser possível desaparecer assim alguém que para mim era essencial? É essencial. Que fim é este que não te deixa terminar nada e nem anúncia sua chegada? Ele é. E nós somos apenas peças compondo o tabuleiro da vida que não possui regras para nos esclarecer suas jogadas repentinas. Sim, acabou. Simplesmente acabou. 

Perder alguém. Perder a ti. Como encontrar sentido para tal? Há algum sentido nisso tudo? Para quê haver sentidos? Lógicas que só servem para mascarar a nossa falta de respostas. Ver alguém partir sem destino. Sem destino mais. É destino. O que na verdade eu perdi se nunca foste minha? O que nós perdemos quando alguém morre? Penso agora que são recortes de nós mesmos. Pedaços de nossos sonhos, nossos planos, nossas fantasias e lembranças. Retalhos de tudo que construímos com e que jamais poderá ser sem. É isso, perdi com tua partida algo meu que não mais poderei retomar no contato com outros. É por isso que dói. É por isso que dói? Não sei, mas dói. 

Por enquanto, nesses sete dias que passaram desde a tua despedida sem adeus, as manhãs continuam a acontecer e o mundo continua girar. É incrível, mas é verdade. As pernas dão seus passos, as vezes tropeçam, porém permanecem na estrada que não trilharás mais. O relógio permanece com seu tic tac nos lembrando que o tempo passa, passou e passará. Todos os dias, desde então, levantar da cama tem uma conotação diferente. E meu maior medo é um dia abrir os olhos e não sentir no corpo o peso da saudade. Medo dessa sensação de vazio se propagar. Quando esse tempo chegar saberei que terás ido embora. Somente nesse instante é que terás ido embora. Por enquanto, "aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor". E, não consigo tirar da cabeça que "quando você acorda, a vida já passou." e "Não é preciso ser velho para sentir o tempo".

Tempo. O que falar dele? Poderia tê-lo usado com mais intesidade. Poderia tê-lo aproveitado. Poderia tê-lo. Não tenho. Ver a impossibilidade de manusear o tempo ao nossos caprichos é humilhante. Se pudéssemos brincaríamos com os ponteiros invisíveis do incontrolável e seríamos rainhas do mundo. O universo estaria aos nossos pés. Teria sido engraçado. Mas não é. 

Pelas pontas dos meus dedos escorrem sentimentos, emoções que não ganham voz quando tentam escapar pela garganta. Desde cedo aprendi que escrever era a saída para aquilo que não poderia ficar preso. Você me ajudou a encontrar outras maneiras, porém continuo com velhos hábitos. E é por isso que não consigo falar sobre tal assunto de outra forma. Diante de tudo que estou vivendo não poderia discorrer sobre sentimento de perda, sobre morte, sobre a vida sem ser de maneira passional. Se caso o fizesse estaria sendo desonesta comigo mesma e com tudo que acredito. Nessas conjuções mal elaboradas e emotivas tento organizar o que esta confuso. "(...) trato meu coraçãozinho como uma criança doente, satisfazendo-lhe todas as vontades".

Ainda havia tantas coisas para fazermos juntas. Nossas promessas estão passeando pelo vento e continuarão. Na tentativa de te manter aqui guardo tudo que possa te lembrar. Conservo as memórias, "mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças". E por mais que pareça loucura, por mais que seja incompreensível, "Mas foi minha, essa amiga, senti esse coração, essa grande alma, em cuja presença eu julgava ser mais do que era, por que era tudo o que podia ser" e isso é o que importa. 

Estou aprendendo que independente do quanto estude, do quanto leia, do quanto pesquise, a realidade sempre te surpreenderá. Quando me deparei com a situação descrita por tantos autores, a circuntância comentada por diversos professores, não pensei, apenas senti. E é no sentimento que pretendo viver e compreender o que me acontece. "Geheimnis".

"Por algum tempo, eles poderiam ter andado juntos sobre o mesmo trilho. Mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem."

P.S: Citações dos livros que partilhávamos como queridos: Os famosos e os duendes da mortes e Os sofrimentos do jovem Werther. E a música De mais ninguém de Marisa Monte que para mim é especial.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Para Nathália Lins, minha cobaia.

Acabou. Finalmente, mas infelizmente, acabou. Só penso agora em como ficar sem, como vai ser sem. Minha cobaia, minha única cobaia. Ela se libertou. Ela se foi. Estava demasiado difícil. Eu sei. Eu entendo, mas dói, dói tanto. Você vinha tropeçando, a gente vinha tentando. Driblamos tantas pedras, pulamos tantos buracos, mas há abismos inevitáveis. Eu sei. Eu entendo, mas dói, dói tanto.

Com quem agora irei falar dos jogos de vôlei e dos jogadores? Para quem irei mandar msgs de natal estúpidas? Com quem irei falar de estupidez? Quem entenderá? Quem me entenderá ? Com quem poderei ser?

No domingo me disse que estava feliz e agora sei o por que. A muito tempo que vinha lutando, suportando, tentando, vencendo, perdendo, morrendo, até aqui. Eu sei. Eu entendo, mas dói, dói tanto. A quem recorrerei para falar daquilo que nem mesmo eu entendo? Quem vai me fazer respirar de novo quando o ar faltar? Tudo parecerá tão vazio agora. Tudo terá menos cor. Aquela promessa não pude cumprir. Aquele presente ainda está aqui, não tive tempo. Não tivemos tempo. Também não cumprisse aquela promessa. É difícil acreditar que o mundo ainda vai continuar a girar sem você aqui.

Depois que te conheci nunca mais fui a mesma, ou melhor, depois que te conheci pude ser eu mesma. Ninguém entende. Ninguém entenderá. Estava na hora, você sabia, eu não. Sim, tem razão, continuarás a viver nos corações daqueles que te amam. Amaram. Amarão. É, terei que acordar todos os dias sabendo que a vida continua, a minha, não mais a tua. Vai, que a paz, finalmente, espera a ti. Eu sei. Eu entendo, mas dói, dói tanto. Não dá para acreditar no que meus olhos viram. Meus ouvidos devem estar malucos. Eu sabia, já sabia, desde o primeiro esboço eu soube, mas não podia acreditar. Queria ter sido melhor. Deveria ter feito melhor e esse espaço vai sempre ficar aberto, pois eu não segurei a corda. Ela escapou pelos meus dedos.

Desculpa ser egoísta. Sei que para ti as coisas não davam mais e isso vinha de muito tempo, mas sou humana, tu também és. Eu sei. Eu entendo, mas dói, dói tanto. Simplesmente fechou os olhos.

Lembro de um episódio do seriado Oz, onde um dos prisioneiros conta a outro após ter perdido o filho sobre um amigo que perdeu um braço. Esse amigo lhe dizia que o mais difícil era sonhar toda noite que ainda tinha o braço e quando amanhecia o dia e abria os olhos precisava se acostumar com a realidade novamente. Uma batalha contínua.

Citasse nosso livro predileto e uma das nossas citações prediletas também:

"algumas coisas ficam mais bonitas quando viram lembranças" 

Desculpa, mas nesse caso, ela não se encaixa. 

Geheimnis!

É mais do quê saudade, é um vácuo. Para sempre minha cobaia.

PS: Já não posso dizer que não conheço a morte e que nunca perdi alguém que amei.  


E quando nos vejo assim até consigo sorrir.


sábado, 28 de julho de 2012

Emudecer

Procuro a multidão com o intuito de encontrar o silêncio.
Busco o barulho tentando obter silêncio.
Vou a festas com músicas altas atrás de não ouvir mais nada.
Eu quero o ensurdecer que todos os sons possibilitam ao meu ser.
Desejo o silêncio que há nas conversas alheias.
Esse silêncio que conforta, alivia e mascara.
Um calar-se de dentro.
O silenciar-se da alma.
No encontro com outros não busco palavras, quero o silêncio.
A tão sonhada paz de espírito de não se questionar.
Não se pensar, não se sentir, não se chorar.
Esse espalhar-se que te propaga e te encaixa no desencaixe.
A graça de não ter mais graça.
O ver-se pelo avesso das crenças que crer ter.
Busco isso, a sedução do não precisar ser.
Hoje quero não ter que ser.
Preciso desse silêncio que apenas o barulho pode me dar.
Hoje deixarei a mim dissipar-se entre todos, entre alguns, entre nenhuns.
Quero o silêncio da batida dos pés da multidão.
Quero o meu silêncio.
Vou silenciar-me.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Solúvel Eu.

Quanto mais eu me espalho, tanto mais me envolvo, mais eu me perco. Me dissolvo feito sal em lágrima quando estou com. Quanto mais com mais sem mim. Perdida em mim. Perdida de mim.

Evaporo-me feito ar nos poros do estar. À procura de se perder entre tantos caio nos barrancos de minha alma e fico lá. Sem esperar, sem querer, sem tentar.

No meio de alguns sou nenhum. Sou massa espalhada pelos braços e abraços, e sorrisos enfeitados. Palavras soltas sobrevoam na estranha comunhão de corpos que não se tocam. Corpos que verdadeiramente não se tocam. Enrroscam-se sem ter ideia do que os enlaçam. Corpos que se tocam e apenas toque, nada mais.

Nesse caldeirão viro mistura. Nesse mar sou espuma, pois quanto mais me espalho, tanto mais me envolvo, quando mais estou com, mais eu me perco, mais eu me esqueço.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A terapia de todos os dias.

A um bom tempo venho pensando sobre psicoterapia. Como faço psicologia converso com meus amigos bastante sobre isso e outros assuntos e uma coisa que nos inquieta é quando alguém nos pede para explicar o que é terapia, o que acontece, como é. Nós não nos contentamos com a celébre resposta: Faça e descobrirá. Para nós não é tão simples e também não é tão complicado. 

Quando enunciada tal palavra a primira imagem que vem a cabeça é a do psicoterapeuta, do espaço terapêutico e a do cliente/paciente. Podemos dizer que essa tríade dá base para o entendimento do que seria uma psicoterapia. No entanto,  não a acho suficiente e talvez seja equivocada. 

Penso em terapia como transformação, como reflexão. O pensar de si em si. É algo que vai além das paredes da clínica e que independe dela. Acredito que seja um erro restringir esse processo a uma sala. Seria enganoso e perigoso essa linha de pensamento. Colocaria os profissionais em uma situação pretensiosa, pois seriam mais que fundamentais, seriam determinantes para o desenvolvimento do processo, o que não é verdade. E os clientes poderiam depositar suas crenças e energias em alguns minutos ou horas por semana para pensar e refletir-se dentro de um ambiente seguro e transformador, o que não deve ser verdade.

Não digo aqui que minha profissão é irrelevante. Que um espaço terapêutico é insignificante. Ambos são importantes para possibilitar ao cliente um olhar diferenciado, uma escuta acolhedora, uma fala refletora que pode dá a oportunidade para que ele pense em si e na sua história de maneira mais clara e responsável. Porém, a terapia pode e deve acontecer na ausência dos dois primeiros. Terapia ocorre na vida, no cotidiano, nos sonhos, no dia-a-dia. Em cada gesto, nas decisões, nas mudanças, nas dores e alegrias, nas conversas e no silêncio, no pensamento que liberta, desilude e ilude novamente.

Somente quando o indíviduo consegue pensar em si mesmo que se pode dizer que está acontecendo uma psicoterapia. É um pensamento que o move, que promove mudança. É algo singular, único, pessoal e independente. Somos, nós terapeutas, facilitadores, acompanhantes de uma jornada, ativadores de um processo que se dá no interior de cada sujeito. Terapia é quando alguém consegue lidar com suas questões indepentemente, sem se amarrar a um protetor ilusório e detentor do saber. 

Esses fatores podem ocorrer com alguém que jamais procurou um profissional da dor. Alguém que não faz idéia do que é uma psicoterapia. O ser humano está em constante mudança. O mundo é seu espaço terapêutico. A vida é seu terapeuta. Alguns esqueçem disso e às vezes é suficiente lembrá-los. Outros não sabem lidar consigo e com nada disso, no entanto nunca é tarde para descobrir. Ampliar as fronteiras e destituir de nós o poder de prover psicoterapia para os outros é fundamental para que ela passe a ser reconhecida como um processo natural do humano. Basta que cada um passe a se responsabilizar por sua história. Perceber a si em si. Todos os dias e a todo instante existe alguém passando por um processo terapêutico sem fazer ideia disso.

Para alguém que ainda não é...

Para mim você ainda não existe. Nesse instante você não é real. E isso se deve ao fato de não ter sentido seu cheiro. Não vi seus olhos brilharem. Não pude ver os músculos do seu rosto se esforçando para esborçar um sorriso. O barulho que sai da sua boca não chegou aos meus ouvidos. A textura da sua pele é desconhecida pelo meu tato. Ainda não o acalentei em meu braços. Não sei do seu choro. Nunca pude conter suas lágrimas. O tamanho dos seus pés. O comprimento das suas mãos.O peso de seu corpo. O jeito de dormir. Poder observá-lo descobrir cada detalhe de si e do mundo. Nada disso para mim é real.Você ainda é uma ilusão. Uma ideia. Um sonho.

Tenho medo de desfrutar da realidade por breves momentos e ter que ver tudo ruir. Pois, não poderei mais me esconder atrás das fantasias. Terei que lidar com o fato de nada ser como imaginei que poderia. Terei que encará-lo, irei sentí-lo e ver minha imaginação perder forma. Tenho medo de vê-lo, pois não saberei ter que adaptar meus desejos e vontades a essa situação. E é assim que as coisas são. Continuo sonhando.

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...