Aqui se lê sobre tudo o que interessa a quem escreve. Tudo muda constantemente, inclusive as opiniões. Aqui se encontra uma escrita livre que se impulsiona pelo desejo de expressar-se. Sinta-se a vontade para questionar e criar. No dia a dia construo minhas ideias e elas diariamente me desconstroem. Nessa costura que faço na minha rotina compartilho com vocês os retalhos e que possam, assim, remendar seus seres.
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terça-feira, 30 de julho de 2019
A vida está passando. A minha vida está passando. Todo dia é um dia que passa por mim. Há dias que sinto-me viva, outros apenas respiro e sigo. No peito de repente surge uma angústia. Um medo de não ter tempo. Afasto a ideia, mas fica guardado na memória: o tempo está passando. E me pergunto, como estou passando pela vida? Definitivamente tem dias que passo sem notar que tenho vida. Acho que não conseguimos aproveitar todo dia que em que a vida passa. Apenas passo. Há vida passando em mim, eu sei, eu reconheço. Existem momentos onde paro e curto o tempo que passa por mim e sou plenamente passagem. Nesses instantes contemplo e me vejo história. Tem dias que durmo, outros acordo, até o dia que não haja mais.
sábado, 27 de abril de 2019
Cuidar da palavra
Minhas palavras têm afeto. Carregam em si minha história. Minhas palavras são identidade. O que digo, representa carne. Discurso vivo das minhas experimentações. Minhas palavras são o conjunto de minha personalidade. O que falo, sou. Sou o que falo. Falo às vezes sem ser. Sou o que calo. Calo para ser. Palavra revela e dissimula. Palavra transcende. É nela que reencontro minha ancestralidade e constituo-me como humana. Palavra é vida e morte. Palavra é ponto de partida que lhe encaminha a um ponto de chegada. Na palavra encontro. Na falta procuro palavra e desejo. Na palavra sou esperança.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
A vida não é medida por merecimentos.
O sujeito contemporâneo padece na negação do inevitável da raça humana, ou seja, que somos finitos, imperfeitos e irrelevantes. Nós não somos especiais. Não somos maiores. Diante da grandeza do mundo temos o mesmo significado que uma formiga. Apenas existimos. Aceitar isso é doloroso. Queremos ser mais. Queremos ser melhores. Repito, a dor do sujeito contemporâneo é não aceitar sua finitude, suas imperfeições e insignificância.
Eu não sei quando foi que comecei a gostar de escrever. Não sei quando foi que surgiu em mim a vontade por poesia. Eu acho que meu prazer por escrever veio do silêncio. Da percepção que nem toda palavra é bem vinda e que nem todo dito é compreendido e acolhido. Acho que surgiu daí a minha ânsia pela escrita. A poesia veio como consequência. A poesia é o esconderijo que me revela. Escrevo para libertar meus silêncios, meus mal-ditos. A poesia é possibilidade de comunicação afetiva. Na poesia eu posso brincar e fingir que sou, sem ser e não ser, quando sou. Lembro que adorava, quando pequena, a atmosfera do mistério. Gostava de ficar só imaginando, pensando, escrevendo histórias, roteiros, e sentimentos. Criava personagens e fingia outras vidas. Sempre tive diário e para escrever nele não podia ser de qualquer jeito. Tinha que ser especial. Tinha que ser verdadeiro, mesmo quando era mentira. Ah, meus diários. Guardo alguns até hoje. Tenho um caderno que possuo desde os 13 anos. Lá, tem tanta coisa guardada. Tanta lembrança. Tanta poesia. E tanto silêncio.
sábado, 9 de março de 2019
Crescer implica em afastar-se do corpo do outro. O crescimento traz consigo a capacidade de manter-se a distância. Na medida que cresce, o indivíduo, amplia suas possibilidades de existir longe do corpo do outro. No momento do nascimento a criança anuncia: "Parto!". E assim, segue em constante partida. Na pele permanece a memória do estar junto e, a cada passo adiante no crescimento, carrega a falta primária do toque. O que seria de nós se não houvesse o abraço?
Sim, crescer implica em afastar-se do corpo do outro.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
A vida é um pega-pego de olhos vendados.
Lembram-se da cabra cega? É um jogo de pega-pego onde o pega está com os olhos vendados. Os outros ficam de olhos abertos e perambulam ao redor do "cabra cega" desafiando-o. Lembro-me que existia algumas regras: O "cabra cega" não poderia ficar parado. Quanto mais ele se movimentava era melhor pro jogo. E os outros precisavam se aproximar do pega. Quanto mais eles se arriscavam no contato com o "cabra cega" aumentava a tensão do jogo.
Uma experiência no consultório fez-me lembrar dessa brincadeira. Propus um experimento para um cliente onde ele ficava de olhos fechados e pensava sobre seus objetivos e sonhos. Na medida que ele visualizava algo caminhava (de olhos fechados) para chegar até aquele objetivo. Quando pensava na possibilidade de esbarrar em algo tinha medo. Então, caminhava com cautela e receio. Esbarrou em alguns móveis e alguns, ele até imaginava que ira aparecer em seu caminho. Notou que podia reorganizar sua rota e que esses esbarrões não impedia sua caminhada. Alguns móveis ele nem imaginava e não sabia em quê estava batendo, mas mesmo assim, continuou caminhando. Às vezes nem tinha mais um objetivo bem traçado e ainda assim caminhava. Não sabia para onde estava indo e ainda assim caminhava. Aos poucos foi ganhando confiança e começou a andar mais relaxado, mesmo não sabendo para onde estava indo e o que poderia encontrar.
Na nossa vida seguimos adiante sem visualizar o amanhã. Caminhamos pela vida como o cabra cega, desejando, almejando, idealizando, porém não temos a visão do porvir. Temos apenas que confiar e ter coragem para ir. É angustiante não ter a plena certeza e segurança do que virá. Ficamos receosos e apreensivos. Queremos prever. Às vezes achamos melhor esperar do que ir buscar, mas lembrem-se do cabra cega. É muito chato quando o pega fica apenas de prontidão esperando. A graça está na busca. Em quando ele sai como um zumbi com braços estirados e sedentos atrás do nada. É nesse momento que ele amplia suas chances. A sua busca é um convite para as outros irem interagir com ele. A sua espera diminui o ritmo do jogo e desmotiva. Saí o grito de reivindicação: "Ah! não pode. Fulano tá roubando. Tem que vir atrás." Sim, na vida não podemos parar e esperar. A vida exige busca, caminhada, movimento. Na vida caminhamos e de repente, esbarramos em algo que não havíamos pensado. Em alguns momentos precisamos mudar o percurso, ficamos confusos, as vezes nos machucamos, cuidamos disso e seguimos. Sempre seguimos. Quanto maior a insegurança, maior é a tentativa de controle, já dizia Frederich Perls. As nossas brincadeiras na infância contribuirão para os nossos processos enquanto adultos. Aquele brincar nos ajudará a estruturar e fortalecer as bases da nossa personalidade frente a desafios e adversidades futuras. Nunca pensei que a vida, no final das contas, seria uma grande brincadeira de Cabra cega. E cá estou eu (estamos nós) seguindo com os olhos vendados e algumas coisas consigo agarrar, outras deslizam sobre meus dedos, outras nem percebo, alguns esbarrões, tropeções, pancadas, quedas e ainda estou aqui, indo, visualizando internamente o meu caminho, os meus sonhos, porém, sem ter a plena certeza de que as coisas se darão como meu desejo constrói. Enfim, sigo.
/
Andreza Crispim
Psicologia Clínica CRP 02/17314
Psicomotricidade Relacional
@psicoterapiafalemais
@psicoterapiafalemais
quinta-feira, 12 de julho de 2018
À casa da minha infância...
Desde pequena (bem pequena mesmo) morei em um apartamento num bairro pobre. Para mim, ele nem era grande, nem era pequeno, simplesmente, acomodava a mim e a minha família. Às vezes, ele parecia enorme e demarcava distâncias absurdas entre nós. Às vezes, ele parecia minúsculo e me sufocava. Vivi nele até meus 26 anos. Sinceramente, não sei quando comecei a morar nele. Acredito que foi por volta dos meus 3 ou 4 anos. O prédio era simples e ficava numa quadra (eu amava aquela quadra). Construí muitas amizades por lá. Antes de morarmos no bloco G, vivíamos no F (Foi a minha primeira mudança). Eu lembro que no auge da minha força ajudei meu irmão a carregar um colchão para a nossa nova casa, o bloco G. Foi nele que comecei a me perceber gente. Passei a infância, a adolescência e iniciei a vida adulta. Saí aos 26 anos. Sem olhar pra trás. Sem saudades e sem remorsos. Apenas mudei. Não sinto falta da minha casa (MINHA casa ...).
Porém, acontece um fenômeno engraçado. Sempre que sonho com casa retorno para a casa da minha infância, meu primeiro lar. Não é a casa da adultez que habito. Quando sonho é a casa da minha infância que me faz morada. Acho isso incrível! Independente do conteúdo do sonho, quando tem casa é pra lá que eu vou. Por exemplo, essa noite sonhei que estava em Serra Talhada, na casa do meu irmão, eu estava lá em Serra, só que o cenário era a querida Quadra 49 e o bloco G. Era a casa da minha infância. Aquela que foi base para as minhas descobertas. Nela vivi tantos sentimentos e aprendi sobre espaço quando me vi crescer e o apartamento diminuir (ao ponto de precisar me mudar). São 2 anos fora de lá. Às vezes, me parece 20 anos.
Diariamente não me faz falta e nem me aquece o coração pensar naquelas paredes laranjas (Isso é lá cor de se pintar casa, gente?) ou até de sentar na janela da sala e ficar pensando em nada e quase tudo. Não me abate e nem me invade as recordações daquelas escadas e os papos jogados fora por lá. Aqueles dois banquinhos debaixo do prédio já acolheram tantos abraços, risadas e lágrimas. As implicâncias do síndico com nós, crianças sedentas para brincar e correr por aquelas garagens. Aquele "quadrado" onde aprendi a namorar. A caixa d'água foi a primeira montanha que escalei. Ser a porta voz de mainha e gritar aos quatro ventos pelo meu irmão que, de repente, aparecia por detrás do prédio J ou vindo da direção do bloco D, era sentir-me poderosa e aliviada, pois eu tinha conseguido encontrá-lo (Ele vinha PUTO!). Não me faz estremecer o coração lembrar dos assovios convidativos dos amigos (que eu ouvia a quilômetros de distância) e de brincar no pequeno (quase minúsculo) terraço de casa, pois estava de castigo e não podia descer. Aprendi a modular minha força e a ser ágil, pois a bola não podia cair na pista. Beber e esconder as bebidas no nossos cantinhos secretos.
Ai! Eu não sinto falta de nada disso. Está tudo muito bem guardado em mim e não me falta, simplesmente me preenche. Não é falta. É presença. Quando falo é um gosto doce que sinto. Durante o dia, vivendo, correndo, caminhando, cuidando da vida, nem me recordo. Só que, quando chega a noite, e sonho com casa, é pra lá que eu vou. É lá que habito. É lá que sou lar. A casa da minha infância é a base dos meus sonhos.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Sobre terapia, pressa e esperança.
Escolher procurar por um psicólogo não é fácil. Iniciar uma terapia exige um processo anterior de aceitação e superação de idéias pré-concebidas. Existem diversos preconceitos com o trabalho do psicólogo, em especial, a psicoterapia/terapia. Buscar esse serviço indica a ultrapassagem dessa primeira barreira: o julgamento alheio que envolve o fazer clínico em psicologia. Quem nunca achou estranho quando alguém fala que vai à terapia? Pensamos logo em "Loucura, sofrimento e fragilidade". Nem sempre nessa ordem e nem sempre o pacote todo. Porém, esses conteúdos perpassam o nosso imaginário ao falarmos de psicoterapia.
Ok! Geralmente, devido a isso, quando o sujeito decide procurar por terapia ele está no seu limite. Ele vive o insuportável. Encontra-se transbordado, sufocado e exausto. O cliente chega com o sentimento de emergência e quer urgência, pois não aguenta mais. Ele tem pressa e nesse ponto encontramos um impasse. Na sua grande maioria as dificuldades vividas no processo terapêutico se dão pela necessidade de urgência que os clientes chegam ao consultório. A angústia está intensa e pede pressa.
Contudo, para a psicoterapia é preciso paciência. Aqui, não há pressa. Terapia exige tempo e não tem certezas. Ela maltrata os ansiosos por não ter respostas prontas e garantias. Chegar ao consultório pedindo por pressa é constatar uma limitação e se deparar com a frustração. Não é nada simples. O terapeuta que entrar na pressa do cliente perde a potencialidade da terapia e o processo empobrece. Eu cuido bastante da minha ansiedade pra que ela não atrapalhe a temporalidade do processo terapêutico. E admito, às vezes, ela me confunde.
Psicoterapia pede tempo e espera. Eu diria esperança até. Esperança no movimento, esperança na dor e esperança na capacidade do cliente de enfrentamento. Às vezes eu penso: "Se essa pessoa aguentou até aqui, então ela tem uma força gigantesca e vai suportar o processo de espera da terapia.". Caso contrário, irá procurar por soluções mágicas, velozes, prontas, práticas, sem sofrimento e desistirá da terapia, pois não trabalhamos com esses modelos. Terapia não anestesia. Terapia revira, procura, remexe, reabre, e trata, não para se alcançar um estado de "cura" , e sim para se aprender o "o quê" e "o como" estamos nos "adoecendo". Passamos a tomar consciência dos nossos processos de bloqueios e impedimentos para, enfim, agirmos sobre eles e isso muda a forma como encaramos a nossa vida.
Adiantando um pouco as coisas, recomendo que busque terapia antes da urgência. Que você possa ir quando ainda puder tolerar. Que a procura surja quando as coisas não estiverem insuportáveis. Que a terapia possa vir no momento que ainda há serenidade. Garanto, que isso será algo que facilitará um pouco mais o trabalho. Vai por mim... Ou não. Na verdade, você que sabe.
Foto: Thyeri Bione
Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista relacional
@psicoterapiafalemais
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Olá! Sou adulta.
Eu cresci. Eu envelheci. Sou adulta. As coisas não são mais como eram na infância e, muito menos, na adolescência. Eu não sou mais quem um dia fui e ao mesmo tempo me sinto em constante transformação. Sei que ainda há muita coisa pra descobrir e se revelar. Há tanta coisa pra aprender. Surgiu em mim um sentimento de gratidão. Gratidão por hoje está me sentindo cada vez mais MINHA. Cada vez mais mulher. Tenho poder. Sou possibilidade. Tenho capacidade de gerir minha vida (Quem diria?). Gratidão por estar aqui, viva, aos 27 anos. São 27 anos. Uau!
Acompanhado da gratidão veio o medo. O medo por hoje perceber que minhas pernas, e apenas as minhas pernas, são o meu apoio. Por tomar consciência que a minha história me pertence e sou eu que a (re)escrevo. Eu, só eu. Apesar de ter tantos entres e outros, sou eu que me faço e refaço todo dia e a todo instante. Sou minha. E, é importante, que eu cuide de mim. Desejo ser bem cuidada. Gosto de ser bem cuidada. Preciso me esforçar para promover o meu bem estar. Medo por encarar a passagem do tempo e ver que estou viva, aos 27 anos. Nossa, já são 27 anos!
E o que falar dos meus amigos e amigas? Gente, quem são meus amigos hoje? Caramba! Eu olho pra eles e penso "É sério isso? Como aquela criança se transformou nisso? Que incrível". Dá pra fazer outro texto sobre isso. Quem sabe um dia...?
É, eu cresci. Envelheci. Sinto, porém, que em mim existe algo de infantil e lúdico. E isso me fortalece e me encanta. Às vezes me dá a sensação de estar em casa. De estar em mim. Fico preocupada em perder essa ingenuidade que já noto mais madura e serena. Temo que ela se torne ridícula e seja mal julgada. Fico preocupada com o reconhecimento e aprovação dos outros adultos. Eu, que inicio nesse grupo quero ser bem recebida. Quero pertencer a essa classe. É louco, né? Gente, é muito louco.
Hoje, do alto da minha varanda me dei conta que eu cresci. E que o tempo tá passando. Que coisa boa é o tempo. Que coisa má é o tempo.
Enfim, quero apenas anunciar que sim, sou adulta. Cheguei, galera!
P.S.: Alguns dirão, "Vixe, só 27 anos?". Para esses eu digo "Respeite os meus 27 anos. Sim, 27 anos. CASSETE, É 27 ANOS! Daqui a pouco serão 28. E que assim seja até não ser mais."
sábado, 16 de dezembro de 2017
Lançamento.
Eu estava ali.
Vivendo. Sonhando.
Recebendo diante da porta todos com um abraço.
Eu era imensidão.
Olhar no rosto de cada um e sentir em mim tamanha gratidão
me deixou inteira.
Transbordei.
A cada olhar eu recebi carinho.
Minha alma foi lavada e renovada.
Esse laços foram remontados e fortalecidos.
Chorar poesia com vocês foi incrível.
Senhor, se na vida eu puder carregar pra sempre uma lembrança
conserve em mim a sensação de ter sido querida e amada como fui no dia 10 de dezembro de 2017.
Obrigada!
Vivendo. Sonhando.
Recebendo diante da porta todos com um abraço.
Eu era imensidão.
Olhar no rosto de cada um e sentir em mim tamanha gratidão
me deixou inteira.
Transbordei.
A cada olhar eu recebi carinho.
Minha alma foi lavada e renovada.
Esse laços foram remontados e fortalecidos.
Chorar poesia com vocês foi incrível.
Senhor, se na vida eu puder carregar pra sempre uma lembrança
conserve em mim a sensação de ter sido querida e amada como fui no dia 10 de dezembro de 2017.
Obrigada!
Tem dias que me acordo sedenta.
Simplesmente acordo como uma pedinte faminta.
Eu quero a vida.
Sinto meu peito abrir-se.
Projetar-se para fora.
Eu quero a vida.
Uma força surge no meio do meu ser.
Uma energia que pede para ser explorada.
É forte. Intensa. Grande.
Não cabe em mim.
Nesse instante danço.
Simplesmente acordo como uma pedinte faminta.
Eu quero a vida.
Sinto meu peito abrir-se.
Projetar-se para fora.
Eu quero a vida.
Uma força surge no meio do meu ser.
Uma energia que pede para ser explorada.
É forte. Intensa. Grande.
Não cabe em mim.
Nesse instante danço.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Meu livro já não é mais meu.
Quando comecei a pensar no processo de produção do livro eu não achei que fosse possível tê-lo. Desconfiei. Insegurança!
Escrevo desde cedo. Tenho muito material espalhado entre cadernos e redes sociais. Durante muito tempo escondi o que produzia e não divulgava meus textos.
No meio desses retalhos de textos e poesias não quis que a escolha do material para o livro fosse um fardo e algo cansativo, então procurei aquelas que estavam mais perto de mim. Não entrei a fundo num processo de pesquisa de tudo que tenho produzido. Com o tempo, veio bastante dúvida, receio e medo. Pensamentos como "Caramba, eu devia ter inserido aquela poesia" ou "Poxa, não era pra ter colocado essa". Decidir o material, a ordem, a forma, o modelo, tudo isso foi de uma maneira bem espontânea e sem grandes pretensões. Não havia na minha cabeça nenhuma estratégia ou construção bem delineada. Na verdade, sinto falta de alguns textos. Enfim, tudo ficou pronto. E nossa, essa porra é possível! Perdoem o palavrão.
Ok! Agora é hora dele ser compartilhado. E é quando a magia começa a acontecer de fato. Meu livro não é mais meu. Ele se transforma e ganha diversos sentidos a cada nova leitura. Descubro que a cada leitor tenho um novo livro. Perceber que cada pessoa reconhece de uma forma única e singular o que ali está escrito, é magnífico. Nesse momento eu vejo que quando lançamos algo pro mundo essa coisa é transformada a cada encontro.
Isso me faz pensar sobre comunicação. Sobre o quanto nós podemos até saber o que falamos, mas não controlamos e dominamos o quê e como o outro vai escutar. Esse processo é sempre uma surpresa e uma construção. E o mais legal é que os sentidos que estão sendo dados sobre o que vem sendo lido vem me fazendo reler minhas próprias poesias por outras perspectivas. Vê que viagem louca!
Estou adorando os questionamentos. Estou adorando os " Oh, Crispim, tu escreveu isso pensando nisso foi? Tu sabe que lembra muito tal coisa né? Tu já experimentou ler ela desse jeito?
Ai que delícia. Melhor do que escrever um livro é saber como ele está sendo lido.
P.S.: Adorarei saber a opinião de cada um sobre o que leu e os significados percebidos em cada poesia. Dividam comigo, tá?
Caso vocês desejem um exemplar do meu livro é só entrar em contato pelo e-mail: andrezacrispim2@gmail.com que encontramos uma solução.
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Carta para meu/minha cliente.
Caro(a) cliente,
Quero admitir que nossa relação nem sempre será fácil. Iniciamos com muitas expectativas e a principal delas se resumi aos sentimentos de acolhimento, cuidado e confiança. Esse tripé constituí a nossa relação e é o que se espera que se baseie um processo psicoterapêutico. Sim, esse tripé é fundamental.
Nosso início é delicado. Você não me conhece. Eu também não faço idéia de quem és, porém, você está aqui diante de mim compartilhando sua história com a esperança de que isso seja transformador. E acredito que será. Após um tempo percebemos que nosso relacionamento está mais leve. Sem tantos receios e desconfianças. Ambos estamos mais confortáveis aqui. Há entre nós acolhimento, cuidado e confiança.
E é exatamente por acreditar nesse tripé que construímos e que estamos, constantemente, fortalecendo que lhe reafirmo: nossa relação nem sempre será fácil. Eu direi coisas que vão lhe machucar. E confesso, às vezes, vai doer em mim também. Porém, tais coisas serão essenciais, acredito eu, para o trabalho que VOCÊ se propôs da autodescoberta e do desvelamento da sua verdade interna. Eu não pretendo lhe poupar.
Quero deixar algo claro: eu NÃO trabalho PARA você. Eu trabalho COM você. Isso demarcará a nossa relação. Eu não lhe sirvo. Eu não lhe obedeço. Eu lhe ACOMPANHO no seu processo de autoconhecimento e minha função é facilitar e cuidar do processo e da forma como lida com ele. Então, em alguns momentos, serei dura com você. Não será gratuitamente, eu garanto! Procuro ser honesta quando você recorre a mentiras. E isso, geralmente, é um saco. Eu sei, mas me preocupo com a sua autenticidade.
Assim, quando você finge, revelo. Quando esconde, encontro. Quando foge, aponto. Quando você fala, escuto. Quando cala, eu falo. Quando escurece, acendo. Quando segura o choro, exponho. Quando sufoca a raiva, a ressalto. Quando debocha, fico séria. Quando evita, atraio.
Irritante né? Eu sei. Dói. Eu sei. Não vou lhe pedir desculpas por isso. Faz-se necessário para crescer. Estou bem aqui para ser honesta com você e ajudá-lo(a) a ser consigo mesmo. Eu lhe respeito e tento a todo custo cuidar para que também se respeite. Eu lhe vejo como sujeito capaz, livre e potente. Não vou lhe subjugar. Não vou diminuí-lo(a). Olho para a saúde e considero que a verdade liberta, apesar de suas inconveniências. Acredite, considero seus limites. Procuro seguir seu ritmo, seu tempo, seu momento. Ficarei atenta para não extrapolar sua capacidade de perceber e lidar com as coisas, no entanto, haverá circunstâncias em que vou apertar esperando que se supere. E em algumas situações você vai. Nesse ponto reafirmamos nosso laço.
Nossa relação é pautada no acolhimento, cuidado e confiança. Estou aqui com você. Sou presente. Disponível. Apoio. Confie. Você vai me odiar em alguns momentos. Só quero lhe dizer que entendo. Espero que isso lhe faça bem.
Atenciosamente,
Sua psicoterapeuta.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Sobre o nascer. Sobre partir.
Ao ato do nascimento dão o nome de parto, pois desde o momento em que nascemos somos partida. Partimos do ventre de nossa mãe e a partir dali estamos em constantes despedidas. Sempre em frente. Sempre adiante. Somos parto e não há como evitar. Para nascermos temos que partir.
O ato de nascer se configura com a nossa saída de um ambiente confortável e seguro para um novo espaço repleto de desafios. Vejo agora que nascer, viver e crescer se faz com constantes despedidas dos nossos pais. É um novo parto/nascimento quando saímos de seu teto, quando casamos e vamos formar a própria família, quando trabalhamos e vamos pagar nossas próprias dividas, quando temos nossos próprios filhos e vamos nos descobrir pais e mães. A cada fase de nossa vida há um novo reencontro com essas figuras. A medida que a criança cresce ela vai descobrindo novos pais. Hoje, enquanto mulher adulta, independente financeiramente e que não habita o lar materno, tenho a oportunidade de descobrir uma nova mãe para mim. E essa nova descoberta se deu graças ao meu parto e consequentemente ao meu nascimento como mulher e não mais como adolescente.
Nascer é partir. Viver é partir. É comum usarmos a expressão diante da morte: Ele(a) descansou. Talvez, nesse instante, a gente reconheça que a vida é constante movimento e, em certa medida, cansativa, pois estamos sempre partindo. Na morte há o descanso. Há a chegada. Na vida existe a constante inquietação para seguirmos, para continuarmos, para partirmos. O ser humano não se contenta e não se conforma com a quietude de se estar onde se estar, pois constrói sua história em cima de partidas. Nós nascemos para partir e é nesse movimento de ida que a gente se fundamenta. Que possamos aceitar as nossas partidas em sentido para novos (re)nascimentos.
Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista relacional
@psicoterapiafalemais
sexta-feira, 30 de junho de 2017
No silêncio da tua face. Na covardia do meu coração.
Quando vejo seu rosto descansado percebo nas linhas dos seus olhos a expressão de dor. Existe um certo sofrimento nas suas sobrancelhas. Meus olhos se enchem de lágrimas por imaginarem o que habita dentro do teu coração. Queria poder te colocar no colo e aliviar essa tristeza que noto na tua face. Queria poder cantar aos teus ouvidos sentimentos bons que pudessem amortecer essa angústia que pressinto na tua alma. Porém, fico apenas aqui te observando do sofá, fazendo poesia e pedindo a Deus pra que quem sabe algum dia essa agonia seja amenizada e que eu possa olhar pro teu rosto e ver uma ponta de serenidade. Aprendi a acreditar em milagres graças a sua fé. E é acreditando nessa sua fé que rogo pra que ela seja forte o suficiente pra Deus lhe dá atenção nos seus murmúrios. Por enquanto, mantenho meu silêncio e aqueço meu coração esperando que de alguma forma esse acalento chegue a ti.
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Sentimento bom é aquele que a gente coloca pro mundo.
Vou desabafar uma ideia com vocês: sentimento pra completar uma transformação ele precisa ser expresso. Sim, porque o sentimento chega propondo uma transformação. E isso é com todo sentimento, seja a alegria, a tristeza, a raiva, o nojo, o orgulho, a vaidade, a paixão, a compaixão ... nenhum sentimento chega pra manter as coisas como estão. Ele vem sugerindo algo sobre o que está sendo vivido e para que ele complete seu ciclo ele precisa de expressão.
Pensa nisso: quando você sente uma alegria e não conta pra ngm e nem a comemora, o que acontece? Parece que a alegre se emudece. Perde força. Fica sem graça, num é? E quando a gente divide ela com alguém ou sai saltitando e batendo palmas pra si mesmo o corpo ganha energia. Fortalece-se. O mundo brilha. Você acende e se torna mais vívido, mais ousado, mais atraente e interessante.
Isso também ocorre com a tristeza. Quando solitária ela se torna peso, amortece, enfraquece, sufoca, isola. Quando compartilhada vira cachoeira, dilui-se, pode atrair apoio, possibilitar carinhos, enxergar possibilidades...
Somente na relação com outros e na expressão de nós mesmos conseguimos encontrar sentido pras experiências de nossa vida. Nossos afetos precisam encontrar espaço pra eles poderem ser, aparecer, causar e realizar mudanças. Não é fácil. Porém, existe um mundo de possibilidades e você pode até se surpreender ao notar que existem pessoas que não irão lhe rejeitar com isso, na verdade, você poderá receber um acolhimento que jamais experimentaria se continuasse a viver escondendo, negando e sufocando a honestidade de suas emoções.
Que cada um de nós possa ter alguém pra que com ele/ela sejamos fiéis e honestos com nós mesmos.
Foto: Thyeri Bione
sábado, 27 de maio de 2017
Pequena reflexão do fim de tarde
E as diversas fugas que armei só para não descobrir minhas mentiras e suportar as verdades?
sábado, 20 de maio de 2017
O chão é um ensino. (Manoel de Barros)
Há algo de mágico em despojar-se no chão. Eu diria até sagrado. Você já tentou? Aqui embaixo eu faço as pazes com a minha insignificância e peço a Deus para continuar apesar da imensidão do céu, da confusão no meu coração e de tudo mais que não tenho controle. Apenas desejo seguir em frente sendo pequena com o coração ardente pra se alcançar uma vida grande. Uma vida digna. Uma existência poética.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Prece 2
Que Deus me dê forças para suportar a vida cheia de arrependimentos que venho desenhando para mim.
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O céu que arde na terra.
Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...
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Há algo de mágico em despojar-se no chão. Eu diria até sagrado. Você já tentou? Aqui embaixo eu faço as pazes com a minha insignificância e...
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Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...
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No meio do caminho havia um sonho. Havia um sonho no meio do caminho. Acorda pela manhã carregando no peito certa ternura e rememora a cena ...






