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domingo, 28 de abril de 2019

Vamos pensar no encaminhamento para o psiquiatra?

É comum falarmos sobre as barreiras, preconceitos e resistências enfrentadas pelos clientes no momento em que eles decidem procurar por psicoterapia. O processo psicoterápico ainda é visto como sinônimo de loucura, fraqueza, desorganização e motivo de vergonha. Geralmente o cliente vem escondido dos amigos e dos familiares. Aos poucos essa primeira impressão vai se diluindo. O cliente já consegue admitir que faz psicoterapia para as outras pessoas sem culpa e vergonha. Sente-se mais livre e auto confiante. 

E então, chega o momento de encaminhar o cliente para a psiquiatria. Cada caso tem sua particularidade e dependendo da demanda do sujeito esse encaminhamento precisa ser realizado com muita cautela e respeito. Pois, com a psiquiatria, também existem barreiras, preconceitos e resistências. Corre o risco do cliente desistir da psicoterapia por temer a indicação para a psiquiatria. Não é todo caso que precisa ser encaminhando, porém em alguns, é essencial que seja.

Juntamente com um cliente que possui grande medo da medicação psiquiátrica, construímos um sentido para a indicação do profissional. O nível de angústia estava altíssimo. A angústia estava insuportável e destrutiva. Nesse momento havia apenas dor e uma dor que não permitia transformação. "Estou afundando. Cada vez mais indo pro fundo. Sinto que não terei mais força pra pegar impulso e subir. Estou cansado. Exausto. E começo a pensar que seja melhor afundar." Havia risco contra sua própria segurança. Aqui, era essencial o apoio psiquiátrico. Existe o medo da internação. Existe o medo do mal profissional. Existe o medo do excesso de medicação. Há escuta de todos os temores e inseguranças, porém, "meu bem, não podemos vacilar. Nesse momento agora você precisa sim, de uma intervenção psiquiátrica. O impulso suicida está forte. E com a morte não há segunda chances. Estamos aqui com você e vamos cuidar disso tudo."


"Qual o sentido da medicação? Vai me ajudar como?"


"A medicação, de uma forma bem aplicada, vai lhe ajudar a não afundar. Imagine que ela será uma boia. A psicoterapia durante um tempo te ajudou a nadar (e as vezes, a psicoterapia ensina o cliente a nadar e a ter coragem de entrar no mar), contudo, nesse momento, você não está mais conseguindo. A medicação servirá como uma boia. Ela não irá lhe tirar da água, mas te ajudará a não afundar. Assim poderemos continuar navegando com menos dificuldades. Até que, você sinta-se forte o suficiente, para continuar sem o suporte da boia. E quem sabe, um dia, não precisará mais que eu lhe acompanhe." 


"Entendi, mas tô com medo."


"Eu sei. Você não está só."

Psicoterapia é sutileza. Psicoterapia é poesia. 

sábado, 9 de março de 2019

Psicoterapia é um processo de humanização e sensibilização.

É comum que o cliente chegue ao consultório com vergonha dos seus sentimentos. Fala de si como fracassado por sentir tristeza, medo, raiva, inveja, insegurança, receio, ansiedade e etc. Acredita que mantendo-se distante de seus sentimentos será mais forte.

Começo a pensar que a psicoterapia é um processo de humanização e sensibilização. Humanizar e sensibilizar o cliente significa contribuir que o mesmo olhe pra si como humano, e isso implica que ele sente uma variedade imensa de emoções. É ajudá-lo a se confrontar com suas faltas e perceber que a inveja tem uma função esclarecedora sobre seus desejos e sonhos. Compreender que a raiva e o orgulho refletem autocuidado em algumas situações e previnem novas decepções. A ansiedade e o medo lhe deixam em alerta. Que o futuro assusta e faz parte do caminhar receios e inseguranças.

Ser humano é ser sentir. O que noto hoje é que parece que estamos com medo de sentir e a cada afeto julgado negativo que floresce nos inundamos com a culpa e haja autodepreciamento. Perdemos de vista o que aquele sentimento tem para nos comunicar e remoemos a sensação de inadequação. O cliente chega confuso, perdido e desorientado, pois negligencia suas emoções. Nossos afetos são norteadores. Eles nos sinalizam os efeitos que as situações vividas geram em nós. São nossas emoções que nos revelam sobre o casamento, o namoro, o trabalho, a graduação, a família, os amigos e tudo o mais em nossa história.

Nossa cultura objetifica e mecaniza o sujeito. Não somos máquinas. Somos feitos de carne. Pulsamos! A psicoterapia é um processo desafiador, pois nos coloca diante de nossa humanidade. Todo sentimento é legítimo, genuíno e digno. Aceite-o. Aprenda sobre si estando atento ao que te provoca. Não há nada de errado na tristeza, no nojo, na raiva, na inveja, no orgulho, na avareza, na ambição e etc. O que há para ser avaliado não é o sentimento, mas a forma como cada um decide se comportar diante deles. A emoção é pura. Sinta! 

Andreza Crispim 
Psicologia Clínica CRP 02/17314 
Psicomotricidade Relacional

Quando chegar é só bater na porta que lhe recebo.

No meu consultório não há campainha, ou seja, o cliente precisa bater na porta quando chega. No início pensava em providenciar uma, mas hoje, é algo que adoro e não tenho intenção de mudar. Percebi que cada cliente tem uma batida diferente e nesse bater já escuto muito do que ele tem a me dizer. Tem aquele que bate tão devagar que preciso estar atenta para ouvi-lo chegar. É uma batida singela, delicada e tímida. Já tem aquele que quando bate levo um susto, pois é forte, firme e brusca. Há aquela que bate e já vai tentando abrir a porta, por mais que saiba que deixo a mesma fechada com chave. Tem os que brincam com a batida e lançam uma música (às vezes chegam sem brincadeiras). Há os que chegam tão cedo que nem batem na porta, esperam na frente para quando o cliente anterior sair.

Adoro esperar o próximo toque. No bater da porta já me sinto em relação com a pessoa que chega. Há quem dê apenas uma batida, há quem dê mais de uma. Tem quem bata com a mão aberta, outros com a mão fechada e aqueles que só tocam as pontas dos dedos (Sim! Dá pra notar as diferenças). Existe o toque ansioso que anuncia urgência. Há o inseguro que pede cautela. A Psicomotricidade relacional me ensinou que o corpo tem discurso próprio e a linguagem corporal é a forma de comunicação mais primitiva do ser humano. O gesto se transforma em palavra. A motricidade é a primeira manifestação de vida que temos. É através dela que inicialmente procuramos entrar em relação e nos comunicar com o mundo. O corpo reflete a vida psíquica do sujeito.

Abrir a porta depois do toque e estar ali, cara a cara, e receber o impacto da chegada. Adoro receber cada um na porta e notar qual o impacto que essa pessoa causa em mim? Psicologia, e em especial, psicologia clínica diz respeito aos detalhes. Estamos o tempo todo dando indícios de nós mesmos em cada gesto e atitude. Por mais que estejamos perdidos ou até negligenciando nosso eu, não conseguimos escapar de nossa essência e de nossa verdade. Ela escorre e transborda no olhar, na roupa, no arrumar do cabelo, no toque, no tom da voz, no bater da porta, no cheiro, na forma de andar e etc. Não escapamos nunca de quem somos. 

Somos, indiscutivelmente, seres que se constituem em relação. Vitor da Fonseca anuncia "A sociedade é para o homem uma necessidade orgânica". Desde a nossa concepção que estamos em relação e ela será a base da nossa subjetividade e vida psíquica. A presença humana ressoa diante de outra pessoa humana. Cada sujeito que chega até nós causa um efeito interno. Não há como sair ileso de um encontro entre seres humanos. Sempre seremos tocados. Em psicoterapia, busco ficar atenta em como aquela presença humana ressoa dentro de mim. De que maneira esse cliente me impacta? Como me sinto diante desse indivíduo? É assim que posso trocar autenticamente com ele. Somente quando me conecto com minha humanidade é que posso alcançar e compreender a humanidade do outro. É difícil não se perder e aprender a filtrar, mas gosto de acreditar na honestidade dos afetos. Psicoterapia não é uma relação linear. Gosto de pensar que estamos em diálogo. Construímos juntos o processo. Participo ativamente, afinal de contas, estou ali, presente. Assim, como o cliente que está diante de mim, sou um sujeito humano com necessidades e desejos. Cuidar da minha subjetividade é zelar pelo processo terapêutico de quem me procura. Fico curiosa pensando: Como será que é minha batida na porta? Infelizmente, no consultório da minha psicóloga tem campainha. Mas como disse anteriormente, não escapamos nunca de quem somos e estamos o tempo todos mostrando para o mundo nosso eu. Ela, volta e meia, brinca comigo e diz: "Eu escuto você chegar já quando vem subindo as escadas e suas respiração forte na porta."Às vezes, chego sem alarde. E é nesse encontro entre duas subjetividades diferentes que se constitui o processo terapêutico.  

Andreza Crispim
Psicologia Clínica CRP 02/17314
Psicomotricidade Relacional


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A vida é um pega-pego de olhos vendados.

Lembram-se da cabra cega? É um jogo de pega-pego onde o pega está com os olhos vendados. Os outros ficam de olhos abertos e perambulam ao redor do "cabra cega" desafiando-o. Lembro-me que existia algumas regras: O "cabra cega" não poderia ficar parado. Quanto mais ele se movimentava era melhor pro jogo. E os outros precisavam se aproximar do pega. Quanto mais eles se arriscavam no contato com o "cabra cega" aumentava a tensão do jogo. 

Uma experiência no consultório fez-me lembrar dessa brincadeira. Propus um experimento para um cliente onde ele ficava de olhos fechados e pensava sobre seus objetivos e sonhos. Na medida que ele visualizava algo caminhava (de olhos fechados) para chegar até aquele objetivo. Quando pensava na possibilidade de esbarrar em algo tinha medo. Então, caminhava com cautela e receio. Esbarrou em alguns móveis e alguns, ele até imaginava que ira aparecer em seu caminho. Notou que podia reorganizar sua rota e que esses esbarrões não impedia sua caminhada. Alguns móveis ele nem imaginava e não sabia em quê estava batendo, mas mesmo assim, continuou caminhando. Às vezes nem tinha mais um objetivo bem traçado e ainda assim caminhava. Não sabia para onde estava indo e ainda assim caminhava. Aos poucos foi ganhando confiança e começou a andar mais relaxado, mesmo não sabendo para onde estava indo e o que poderia encontrar. 

Na nossa vida seguimos adiante sem visualizar o amanhã. Caminhamos pela vida como o cabra cega, desejando, almejando, idealizando, porém não temos a visão do porvir. Temos apenas que confiar e ter coragem para ir. É angustiante não ter a plena certeza e segurança do que virá. Ficamos receosos e apreensivos. Queremos prever. Às vezes achamos melhor esperar do que ir buscar, mas lembrem-se do cabra cega. É muito chato quando o pega fica apenas de prontidão esperando. A graça está na busca. Em quando ele sai como um zumbi com braços estirados e sedentos atrás do nada. É nesse momento que ele amplia suas chances. A sua busca é um convite para as outros irem interagir com ele. A sua espera diminui o ritmo do jogo e desmotiva. Saí o grito de reivindicação: "Ah! não pode. Fulano tá roubando. Tem que vir atrás." Sim, na vida não podemos parar e esperar. A vida exige busca, caminhada, movimento. Na vida caminhamos e de repente, esbarramos em algo que não havíamos pensado. Em alguns momentos precisamos mudar o percurso, ficamos confusos, as vezes nos machucamos, cuidamos disso e seguimos. Sempre seguimos. Quanto maior a insegurança, maior é a tentativa de controle, já dizia Frederich Perls. As nossas brincadeiras na infância contribuirão para os nossos processos enquanto adultos. Aquele brincar nos ajudará a estruturar e fortalecer as bases da nossa personalidade frente a desafios e adversidades futuras. Nunca pensei que a vida, no final das contas, seria uma grande brincadeira de Cabra cega. E cá estou eu (estamos nós) seguindo com os olhos vendados e algumas coisas consigo agarrar, outras deslizam sobre meus dedos, outras nem percebo, alguns esbarrões, tropeções, pancadas, quedas e ainda estou aqui, indo, visualizando internamente o meu caminho, os meus sonhos, porém, sem ter a plena certeza de que as coisas se darão como meu desejo constrói. Enfim, sigo.

Andreza Crispim
Psicologia Clínica CRP 02/17314
Psicomotricidade Relacional
@psicoterapiafalemais
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quarta-feira, 28 de março de 2018

Sobre terapia, pressa e esperança.

Escolher procurar por um psicólogo não é fácil. Iniciar uma terapia exige um processo anterior de aceitação e superação de idéias pré-concebidas. Existem diversos preconceitos com o trabalho do psicólogo, em especial, a psicoterapia/terapia. Buscar esse serviço indica a ultrapassagem dessa primeira barreira: o julgamento alheio que envolve o fazer clínico em psicologia. Quem nunca achou estranho quando alguém fala que vai à terapia? Pensamos logo em "Loucura, sofrimento e fragilidade". Nem sempre nessa ordem e nem sempre o pacote todo. Porém, esses conteúdos perpassam o nosso imaginário ao falarmos de psicoterapia.

Ok! Geralmente, devido a isso, quando o sujeito decide procurar por terapia ele está no seu limite. Ele vive o insuportável. Encontra-se transbordado, sufocado e exausto. O cliente chega com o sentimento de emergência e quer urgência, pois não aguenta mais. Ele tem pressa e nesse ponto encontramos um impasse. Na sua grande maioria as dificuldades vividas no processo terapêutico se dão pela necessidade de urgência que os clientes chegam ao consultório. A angústia está intensa e pede pressa.

Contudo, para a psicoterapia é preciso paciência. Aqui, não há pressa. Terapia exige tempo e não tem certezas. Ela maltrata os ansiosos por não ter respostas prontas e garantias. Chegar ao consultório pedindo por pressa é constatar uma limitação e se deparar com a frustração. Não é nada simples. O terapeuta que entrar na pressa do cliente perde a potencialidade da terapia e o processo empobrece. Eu cuido bastante da minha ansiedade pra que ela não atrapalhe a temporalidade do processo terapêutico. E admito, às vezes, ela me confunde. 

Psicoterapia pede tempo e espera. Eu diria esperança até. Esperança no movimento, esperança na dor e esperança na capacidade do cliente de enfrentamento. Às vezes eu penso: "Se essa pessoa aguentou até aqui, então ela tem uma força gigantesca e vai suportar o processo de espera da terapia.". Caso contrário, irá procurar por soluções mágicas, velozes, prontas, práticas, sem sofrimento e desistirá da terapia, pois não trabalhamos com esses modelos. Terapia não anestesia. Terapia revira, procura, remexe, reabre, e trata, não para se alcançar um estado de "cura" , e sim para se aprender o "o quê" e "o como" estamos nos "adoecendo". Passamos a tomar consciência dos nossos processos de bloqueios e impedimentos para, enfim, agirmos sobre eles e isso muda a forma como encaramos a nossa vida.

Adiantando um pouco as coisas, recomendo que busque terapia antes da urgência. Que você possa ir quando ainda puder tolerar. Que a procura surja quando as coisas não estiverem insuportáveis. Que a terapia possa vir no momento que ainda há serenidade. Garanto, que isso será algo que facilitará um pouco mais o trabalho. Vai por mim... Ou não. Na verdade, você que sabe. 


Foto: Thyeri Bione


Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista relacional
@psicoterapiafalemais



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Carta para meu/minha cliente.

Caro(a) cliente,

Quero admitir que nossa relação nem sempre será fácil. Iniciamos com muitas expectativas e a principal delas se resumi aos sentimentos de acolhimento, cuidado e confiança. Esse tripé constituí a nossa relação e é o que se espera que se baseie um processo psicoterapêutico. Sim, esse tripé é fundamental. 

Nosso início é delicado. Você não me conhece. Eu também não faço idéia de quem és, porém, você está aqui diante de mim compartilhando sua história com a esperança de que isso seja transformador. E acredito que será. Após um tempo percebemos que nosso relacionamento está mais leve. Sem tantos receios e desconfianças. Ambos estamos mais confortáveis aqui. Há entre nós acolhimento, cuidado e confiança.

E é exatamente por acreditar nesse tripé que construímos e que estamos, constantemente, fortalecendo que lhe reafirmo: nossa relação nem sempre será fácil. Eu direi coisas que vão lhe machucar. E confesso, às vezes, vai doer em mim também. Porém, tais coisas serão essenciais, acredito eu, para o trabalho que VOCÊ se propôs da autodescoberta e do desvelamento da sua verdade interna. Eu não pretendo lhe poupar.

Quero deixar algo claro: eu NÃO trabalho PARA você. Eu trabalho COM você. Isso demarcará a nossa relação. Eu não lhe sirvo. Eu não lhe obedeço. Eu lhe ACOMPANHO no seu processo de autoconhecimento e minha função é facilitar e cuidar do processo e da forma como lida com ele. Então, em alguns momentos, serei dura com você. Não será gratuitamente, eu garanto! Procuro ser honesta quando você recorre a mentiras. E isso, geralmente, é um saco. Eu sei, mas me preocupo com a sua autenticidade.

Assim, quando você finge, revelo. Quando esconde, encontro. Quando foge, aponto. Quando você fala, escuto. Quando cala, eu falo. Quando escurece, acendo. Quando segura o choro, exponho. Quando sufoca a raiva, a ressalto. Quando debocha, fico séria. Quando evita, atraio. 

Irritante né? Eu sei. Dói. Eu sei. Não vou lhe pedir desculpas por isso. Faz-se necessário para crescer. Estou bem aqui para ser honesta com você e ajudá-lo(a) a ser consigo mesmo. Eu lhe respeito e tento a todo custo cuidar para que também se respeite. Eu lhe vejo como sujeito capaz, livre e potente. Não vou lhe subjugar. Não vou diminuí-lo(a). Olho para a saúde e considero que a verdade liberta, apesar de suas inconveniências. Acredite, considero seus limites. Procuro seguir seu ritmo, seu tempo, seu momento. Ficarei atenta para não extrapolar sua capacidade de perceber e lidar com as coisas, no entanto, haverá circunstâncias em que vou apertar esperando que se supere. E em algumas situações você vai. Nesse ponto reafirmamos nosso laço. 

Nossa relação é pautada no acolhimento, cuidado e confiança. Estou aqui com você. Sou presente. Disponível. Apoio. Confie. Você vai me odiar em alguns momentos. Só quero lhe dizer que entendo. Espero que isso lhe faça bem.


Atenciosamente,

Sua psicoterapeuta. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

XVI Congresso Internacional de Gestalt-terapia: Primeiras impressões.

"Somos sociais ou antissociais?"

A minha primeira experiência com congressos de Gestalt-terapia foi no ano de 2013 no evento nacional aqui em Recife. Fiquei maravilhada com o encontro e com as repercussões que esse gerou sobre mim. Criei a ideia de que os congressos de Gestalt-terapia eram profundamente inquietantes e terapêuticos. Com esse pensamento cheguei ao XVI Congresso Internacional de Gestalt-terapia no Rio de Janeiro e fui surpreendida. 

Na noite de abertura fomos atravessados. Aos arredores da UERJ, local que estava recebendo o evento, ocorria um protesto de moradores de uma favela próxima contra a desapropriação de terras. Também havia dentro da Universidade, no prédio em frente ao nosso, um movimento dos estudantes e esses quebravam vidros e gritavam palavras de ordem. A situação estava tensa. O metrô estava fechado, na rua havia batalhão do choque e policiais, nenhum carro passava. Nós estávamos trancados em um teatro e por um bom tempo não fazíamos ideia do que acontecia lá fora. Até o momento em que fomos informados que precisaríamos evacuar a Universidade com urgência. O desespero se instaurou, pois cada um que contava sua versão. Disseram que havia morrido um chefe do tráfico e estavam protestando por isso, chegaram a dizer que se continuássemos juntos, eles (seja lá quem fosse) não entrariam atirando em nós. Entre a tentativa de manter-se calmo e o clima de pânico que surgia entre nós havia o pensamento: Como isso pode estar acontecendo? Eu paguei caro por isso aqui.

Era incerto a continuidade do evento. Saímos por uma "rota segura" e lá fora as pessoas estavam calmas e vivendo a sua rotina normalmente. Enquanto nós, que carregávamos pastinhas azuis, corríamos desesperados e duelávamos por um táxi que aceitasse nos levar para o destino desejado. Foi difícil, mas chegamos bem. 

No outro dia, fui normalmente para o congresso, e aqui começo a falar da minha experiência pessoal, mas com um sentimento de incerteza e certo incômodo. Após as apresentações da manhã fomos convidados a nos reunirmos no grande teatro para resolver questões da organização do Congresso. Lá somos informados que o evento não poderá mais ocorrer na Universidade por riscos de novas mobilizações e protestos. O reitor temia por nossa segurança e o evento terá que ser transferido para uma Universidade Particular, pois lá "não acontece dessas coisas". Teríamos algumas perdas. O congresso não iria acontecer dentro do programado.

E assim, lá estou eu, sentada naquela poltrona sem acreditar no que estava acontecendo. Sentindo-me lesada, impotente, frustrada e preocupada. Fiquei lembrando do questionamento lançado por uma palestrante: "Somos sociais ou antissociais?". Não dava para negar a realidade. Não dava para discutir sobre os conceitos de Contato, Campo e Ajustamento Criativo e negar o meio social em que vivemos. Como pensar figura e fundo e não levar em consideração a nossa experiência naquelas circunstâncias? Eu sou um ser social e faço parte de tudo isso. E tudo isso faz parte de mim. Os moradores da favela da mangueira e os estudantes da UERJ jogaram isso na minha cara. O que fazer diante disso? Por enquanto a alternativa que encontramos é mudar de lugar. Ir para longe. Afastar-nos. Vamos agora para a Universidade de Santa Úrsula (e que ela nos proteja). No entanto, penso: não é assim que sempre fazemos? Não é assim que "resolvemos"?

É, os Congressos de Gestalt-terapia são extremamente inquietantes.

domingo, 10 de agosto de 2014

Sobre a psicoterapia e o lugar do psicoterapeuta.



Quando alguém procura uma psicoterapia vai em busca de ajuda, de uma resposta para suas dúvidas e tormentos. Ela acredita que aquele profissional poderá responder às suas confusões e encerrar seu sofrimento.  O cliente chega com todas as perguntas e espera sair com algumas respostas. O psicólogo quando recebe um cliente espera ser útil para este e o melhor que ele pode fazer é não ajudá-lo. Como assim? 

Quando penso em ajudar alguém estabeleço uma meta, possuo um conceito do que seria o melhor para este sujeito, procuro fazer algo para melhorar a sua vida. O ato de ajudar me coloca como ativo e o ajudado como passivo. Quando penso em ajudar alguém me vejo praticando uma ação que acredito que aquele não é capaz de fazê-la no momento.  Tal posicionamento por parte de um psicoterapeuta não trará os benefícios propostos de uma psicoterapia. E o que uma psicoterapia pode proporcionar?


A psicoterapia é um espaço de (re)descoberta. Gosto de pensar também que esse é um espaço de aprendizagem. E o que se (re)descobre e se aprende? A si próprio. “O que é essencial não é que o terapeuta aprenda algo sobre o paciente e então lhe ensine, mas que o terapeuta ensine o paciente como aprender sobre si mesmo.” (STEVENS, Barry. 1978, p.39). Perls costumava dizer que aprender é descobrir que algo é possível, e para mim essa frase culmina exatamente no tipo de aprendizagem que se apreende da psicoterapia. O cliente descobre que/como é possível lidar com os infortúnios da vida. Ele descobre elementos novos sobre si e os utiliza de modo que sua vida se torne mais satisfatória. O psicoterapeuta fornece ferramentas para que o consulente construa seus próprios instrumentos de crescimento.

Muitas pessoas acreditam que não precisam (re)descobrir a si mesmas. E algumas estão corretas, outras nem tanto. Durante nossa vida somos impulsionados a acreditar que a melhor maneira de sobreviver nesse mundo é nos anularmos e fazemos isso para nos proteger do sofrimento. Contudo, pagamos um preço muito caro e este é que chega um momento na vida em que sentimos certo vazio e uma incapacidade para lidar com as dificuldades. Não sabemos do que somos capazes, se somos capazes e quais os recursos que possuímos. Não confiamos em nós mesmos, em nossa potencialidade para realizar algo, na possibilidade de transformação interior e exterior. Estamos incertos quanto ao que pensamos, sentimos e fazemos. Ás vezes parece que a nossa história não é construída por nós. Existem milhares de dúvidas a respeito do que estamos construindo para nossas vidas.



Enquanto a esse processo de aprendizagem da descoberta, a psicoterapia, informo que “As descobertas são solitárias. Sempre foram. Sempre serão.” (CANEPPELE, Ismael, 2010, p.68). A riqueza de uma descoberta advinda de um processo pessoal de busca é muito mais válida do que aquelas percebidas pelo olhar do outro. O grande barato é não revelar a verdade, mas possibilitar que o outro a perceba através dos seus próprios recursos e no seu devido tempo. É encantador observar o espanto que o cliente tem quando se depara com algo que não estava percebendo em si mesmo.  O psicoterapeuta não mostra nada ao cliente, esse é que mostra as suas verdades e dúvidas, o profissional só irá apontar tais informações, e ao olhar mais uma vez para seu discurso o cliente poderá descobrir novas questões que não estava atentado. 

“Nossa visão do terapeuta é que ele é semelhante àquilo que o químico chama de catalisador, um ingrediente que precipita uma reação, que de outra maneira poderia não ocorrer. Ele não determina a forma da reação, que depende das propriedades reativas intrínsecas das sustâncias presentes, e tampouco participa de qualquer composto que venha a ser formado com sua ajuda. O que ele faz é simplesmente dar início a um processo, e há alguns processos que, uma vez iniciados, são automantenedores e autocatalíticos.” (STEVENS, Barry. 1978, p.38). 

 

Rainer Maria Rilke, poeta alemão de grande relevância, escreveu um conjunto de cartas entre os anos de 1903 e 1908, endereçadas ao jovem Franz Xaver Kappus com o intuito de lhe falar sobre o ofício de escritor. O jovem lhe requisitava respostas sobre suas produções e queria conselhos do grande poeta que admirava. As respostas de Rilke para as inquietações de Kappus podem ser utilizadas na reflexão sobre o posicionamento do psicoterapeuta diante das requisições dos seus clientes.



“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. (...) Se depois dessa volta para dentro, desse ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar a quem for se são bons.”(p.26-27). Sobre o processo de crescimento pessoal Rilke continua, “Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.” (p.28).

Aos psicoterapeutas aconselho algo, que sejam pacientes. A paciência é fundamental para a nossa profissão. Cada sujeito tem seu ritmo e sua forma de se desenvolver. No pouco tempo que tenho de profissão venho aprendendo a ser paciente e também tenho tentado ter paciência com meu processo de aprendizado. Como diria Rilke (2001),

“Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, por que não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta. Quiça carregue em si a possibilidade de criar e moldar- como uma maneira de ser particularmente feliz e pura. Eduque-se para isto, mas aceite o que vier com toda confiança.” (p.42-43)




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

STEVENS, Barry. Não apresse o rio: ele corre sozinho. São Paulo: Summus, 1978.

CANEPPELE, Ismael. Os famosos e os duendes da morte. São Paulo: Iluminuras, 2010.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristovão Rilke. São Paulo: Globo, 2001.
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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Aplicar ou não aplicar, eis a questão: Sobre o uso de técnicas na psicologia.

Um dos pontos mais debatidos na psicologia atualmente é a tecnização dos profissionais da área. Discute-se o quanto a utilização de recursos técnicos pode ser favorável ou desfavorável ao processo. Já refleti, em outro momento, aqui no blog sobre esse assunto (Link - http://andrezacrispim.blogspot.com.br/2012/08/fora-de-visao-enxergar-alem-do-que-os.html), agora, quero pensá-lo através da poesia de Manoel de Barros e da teoria da Gestalt-terapia.

Para começar quero utilizar a seguinte frase de Manoel: "Tudo que não invento é falso". A Gestalt-terapia prioriza no encontro terapêutico a relação que surge entre psicoterapeuta e cliente, mas muito mais do quê isso, ela discute a essencialidade do humano voltar-se para o aqui e agora, afirmando que não há outra possibilidade de existência fora desse espaço e tempo. O homem deve deixar guiar-se por aquilo que a situação lhe desperta, minimizando preconceitos enrijecidos e descontextualizados. Deixar-se guiar pela situação é permitir a espontaneidade de sua própria ação e de seu modo de perceber as coisas e a si mesmo. É procurar estabelecer um acordo entre suas necessidades internas e as exigências externas. O sujeito precisa inventar a sua própria atitude para que ela seja criação genuína de seu ser e não apenas reproduzir conceitos ditos como mais coerentes que não emanaram de uma inquietação singular. A invenção não exige que seja algo nunca visto, mas que seja produto criativo do próprio indivíduo para si mesmo. "Tudo que não invento é falso", pois não surgiu de um movimento pessoal para a tentativa de compreender ou lidar com algo. 

"Todo conhecimento teórico em psicoterapia só tem sentido se usado a serviço do cliente." (Pinto, Ênio Brito, p. 70). O psicoterapeuta precisa estar em pleno contato com a expressão e modo de ser singular de seu cliente para utilizar ferramentas que sejam úteis a esse. Para isso, criará dentro do contexto relacional e situacional do encontro terapêutico meios de intervenções que estejam interligados aos preceitos teóricos e à particularidade do cliente. A técnica não pode ser utilizada com algo inflexível e enxertado na relação, pois dessa forma o terapeuta perde de vista o que há de mais importante, que é a unicidade do ser e o modo como percebe o sujeito. Lembro das aulas sobre técnicas e dinâmicas de grupo que os professores sempre repetiam e nos pediam para lê-las e tentar dar um novo tom a elas, que jamais as usássemos como estavam no livro puramente. Para que a técnica corresse bem era necessário dá um toque pessoal que fosse condizente com as nossas condições de manejo e a situação a ser empregada. Os professores nos pediam para sermos inventores, para sermos criativos. 

"Invento para me conhecer", outra poesia de Manoel que recorro para falar do quanto para nós psicólogos é importante reconhecer o seu modo particular de intervir e trabalhar. Para sermos bons profissionais não precisamos ser Freud ou Jung, muito menos Perls ou Rogers, basta ser apenas nós mesmos. Eu sei que isso não é fácil, mas é o que é. Assim, "Um processo terapêutico começa pela possibilidade de que o terapeuta interaja com seu cliente e valorize a pessoa singular que ele é, com sua história singular, com seu momento singular, com suas dores singulares." (Pinto, Ênio Brito, p. 70) e que se reconheça da mesma forma. 

Ressalto aqui que é fundamental o estudo e o conhecimento sobre as teorias psicológicas e as técnicas que compõe nossa ciência. Recordo que li em algum lugar (não lembro onde) que o estudo teórico surgia para ficarmos mais inocentes na escuta do cliente. Isso quer dizer que quanto mais eu domino a teoria, mais amplio o meu campo de compreensão. Torno-me mais suscetível à experiência do próximo. No entanto, esse conhecimento não pode estar no foco da relação. Ele precisa transformar-se em tecido, órgão, sangue. Não pode ser mero acúmulo, na verdade é necessário que todo conhecimento seja transformado em nada, para que se crie espaço de criação e novidade. Como diria o poeta, "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.". Também nas palavras dele,

"O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas, quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento."

Penso aqui em uma poesia de Manoel que pode demonstrar um pouco como o instrumental técnico pode desfavorecer o processo se for mal utilizado:

"O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa era a imagem de um vidro mole. 
Passou um homem e disse: Essa volta que o rio faz se chama enseada. 
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada. 
Acho que o nome empobreceu a imagem." 

Nesse ponto reflito no cuidado que necessitamos ter para não empobrecer a experiência pessoal do cliente quando os engessamos em teorias e técnicas. Cada cliente percebe o rio que cobre a sua casa de uma forma e nós precisamos compreendê-los, independente da nossa forma de perceber esse rio. Eu, por exemplo, não tenho rio algum rodeando a minha casa, na verdade, moro em apartamento. 


Foto:  https://www.facebook.com/jonasaraujofotografia?fref=ts

- Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições (Manoel de Barros).

 * Ênio Brito Pinto. Psicoterapia de curta duração na abordagem gestáltica.
Manoel de Barros. Poesia Completa.


sexta-feira, 28 de março de 2014

A vida velada dos sentimentos

Meu trabalho de conclusão de curso (psicologia) foi sobre tristeza e que esse sentimento pode ser fonte de crescimento e amadurecimento pessoal. Na verdade, busquei legitimar esse sentimento como fenômeno que faz parte da existência humana e que não pode ser rejeitado ou negado como vem sendo atualmente na sociedade. Trabalhei com a hipótese de que o sujeito ao tentar mascarar ou reprimir o sentimento de tristeza em busca de alívio ou felicidade conseguirá o exato oposto. Cada vez mais que negligenciar esse sentimento só se tornará mais frágil e despreparado para lidar com o mesmo e com situações desagradáveis na vida. 


O que quero dizer nesse texto que escrevo agora é que não é apenas o sentimento de tristeza que possibilita crescimento ao sujeito, mas todos os nossos sentimentos são fontes de amadurecimento. E quando digo todos, quero dizer todos mesmo. Temos na nossa sociedade o infeliz hábito de rejeitar sentimentos que tenham o caráter negativo, como por exemplo, a tristeza, a raiva, a inveja, a ganância, a vaidade dentre outros. Desde cedo somos levados a acreditar que tais sentimentos não são dignos e que devem ser retirados da nossa vida. Além do mais, a vivência dos mesmos causa bastante desconforto, eles são dolorosos, despertam incômodos e criam conflitos internos e/ou externos. Existe ainda em nossa cultura a pobre ilusão de que a vida é toda prazer e que a felicidade passa a ser algo a ser alcançado a todo custo e inabalável. Infelizmente (ou felizmente) a própria vida nos mostra que não tem como passar pelo mundo sem experimentar frustrações e com elas toda a gama de sentimentos negativos possíveis.   


Qualquer sentimento humano é legítimo, ou seja, digno de ser vivenciado e respeitado. A grande questão não são os sentimentos, mas os comportamentos que temos diante deles. Lembro de um momento na graduação quando uma amiga tira uma nota maior que a minha na apresentação de um trabalho. No instante que vi sua nota foi inegável, eu senti inveja dela e prontamente comentei meu sentimento. Todos rimos da situação. A minha inveja era legítima, apontava para alguma necessidade minha que precisava ser satisfeita ali, talvez reconhecimento, talvez massagear minha auto estima e tantas outras coisas. Todo meu ser respondia a alguma necessidade que era apontada pelo sentimento de inveja, e o quanto era importante pra mim perceber o que ele me comunicava, saber o que eu estava vivenciando naquele instante. A grande questão como eu disse é nosso comportamento frente a tudo isso. Eu não corri atrás da minha amiga e a empurrei da escada, ou simplesmente toquei fogo na caderneta ou sei lá mais o quê. Talvez por negarmos a vivência de tais sentimentos é que agimos de modo tão imaturo diante deles. Precisamos entender que o outro não tem que dar conta de nossos sentimentos e muito menos de nossas frustrações. Precisamos ser responsáveis por aquilo que sentimentos e respeitarmos o que nosso ser nos comunicar a cada sensação sentida.

Estive pensando esses dias sobre tudo isso e refleti o quanto os sentimentos positivos (alegria, felicidade, amor, compaixão e etc) nos mostram as possibilidades da vida humana, tais sentimentos são sentidos como abertura do nosso existir. Quanto aos sentimentos negativos eles nos apontam os limites da vida humana, demonstram o vazio da existência. E hoje, nos tempos atuais, o homem se ver completamente despreparado para suportar esse aspecto da realidade. Não sei se em outros tempos fomos tão repulsivos a dor de viver a vida como ela é. Queremos apenas nos divertir e esquecemos que no meio da brincadeira existem os machucados e que as vezes é preciso dar um tempo na diversão pra cuidar de si próprio e voltar mais fortalecido pro parquinho. Quando não cuidamos de um machucado não conseguimos nos divertir bem e acaba que algumas vezes sobra para nós o papel do café com leite na brincadeira (quem se lembra dele?). Todos nós sabemos que não tem graça alguma ser o café com leite, pois o café com leite apenas fingi que brinca, na verdade ele não participa do jogo. Existe muita gente vivendo como café com leite, pois tem medo de parar e lidar com seus machucados, com suas confusões. 

Estou lendo o livro O drama da criança bem dotada - como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos de Alice Miller e quero dizer que ele é fantástico. A autora vai mostrando que muitas vezes na infância abdicamos de ser nós mesmos para satisfazer as vontades de nossos pais/cuidadores e também para nos proteger. Crescemos negando grande parte do nosso eu, pois acreditamos que essa seja a melhor forma de sobreviver naquele ambiente. O problema é que quando crescemos esquecemos o que nos levou a ter tais comportamentos e acabamos nos habituando àquele modo de agir, e o reproduzindo sem ter ideia dos motivos. Nas palavras de Alice Miller (1997) "A acomodação às necessidades dos pais, em geral leva (mas nem sempre) ao desenvolvimento da 'personalidade como se', ou ao chamado falso self. A pessoa desenvolve uma postura na qual apenas mostra o que é esperado dela, fundindo-se a essa imagem" (p.23). Perls, fala desse fenômeno como formação de caráter. Para ele, "A maioria das pessoas vive apenas em função da imagem. Onde algumas pessoas têm um self, a maioria das pessoas tem um vazio, pois estão muito ocupadas em parecer isso ou aquilo. Isto, outra vez, é o tormento do ideal - o tormento de que você não deve ser o que você é" (1977, p.38). Trago esses trechos para refletir que o papel da terapia é de ajudar o sujeito a "encontrar" seu verdadeiro self, ou como diria Perls, passar a agir de acordo com seu processo de auto-regulação organísmica, que significa realizar suas escolhas pautado no próprio desejo tomando consciência da necessidade que se mostra mais emergente no seu organismo.

Basicamente, a terapia nos ajuda a não mais menosprezarmos nossos sentimentos e nem os tratarmos com ironias. O processo psicoterapêutico nos ajuda a encontrar a verdade do nosso desejo e a desenvolvermos nosso potencial. Respeitar e aceitar os nossos sentimentos é um dos passos que no leva a ter consciência de quem realmente somos e não de quem gostaríamos de ser e/ou de quem gostariam que fôssemos. "Dessa forma, descobrimos que o verdadeiro self, após décadas de silêncio, pode com a recém-conquistada habilidade para sentir, despertar para a vida" (MILLER, Alice. 1997, p.26) e finalmente compreender que "'Posso ser feliz ou triste sempre que algo me faça feliz ou triste, mas não preciso parecer alegre para ninguém e não preciso reprimir minha aflição, meu medo, ou outros sentimentos para corresponder às necessidades de outras pessoas" (Idem).

Para finalizar deixo as palavras do poeta,
"O senhor teve muitas e grandes tristezas, que passaram, e me diz que até a sua passagem foi difícil e desenganadora. Mas, por favor, reflita: essas grandes tristezas, não terão passado, antes, pelo âmago de seu ser? Muita coisa não terá mudado dentro de si? Algum recanto de seu ser não se terá modificado enquanto estava triste? Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz. Como as doenças tratadas superficialmente e à toa, elas apenas se escondem e, depois de leve pausa, irrompem muito mais terríveis. Juntam-se no fundo da alma e formam uma vida não vivida, repudiada, perdida, de que se pode até morrer" (RILKE, Rainer Maria. 2001, p.65).


Referências:

MILLER, Alice. O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo: Summus, 1997.


PERLS, Frederick. Gestalt-terapia explicada. 2º ed. São Paulo: Summus, 1977.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristovão Rilke. São Paulo: Globo, 2001.

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