terça-feira, 3 de novembro de 2015

Aleluia.

Ali, deitada de cara ao chão, te perdoei pela ausência, pelo vazio e pela saudade.

Ali, de cara ao chão, me perdoei pelo não, pela despedida e pela saudade.

Chorei todas as nossas distâncias.

Adeus pai.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que aprendi na escola? - Sobre o trabalho da psicologia escolar e educação.

A escola é ambiente de aprendizagem e crescimento. Todos os dias crianças e adolescentes se dirigem a escola e passam grande parte do tempo nesses locais aprendendo e se desenvolvendo. Ok, isso todo mundo sabe e ninguém nega. Porém, mais do que aprender os conteúdos das matérias, mais do que saber sobre português, matemática, história e tantas outras disciplinas, os alunos vivem e experimentam a vida nesses ambientes. Hoje, trabalhando como psicóloga escolar percebo, mas do que na época que fui estudante, a relevância de se ampliar a reflexão sobre o papel da educação escolar na vida dos jovens. 


Trabalho com adolescentes do 6º ano do ensino fundamental anos finais até a 3º série do ensino médio. Convivo com eles diariamente. Divido experiências. Compartilho sentimentos. Diferentemente da clínica que apenas vejo o cliente um dia na semana por 45 minutos, passo a manhã inteira com esses jovens conversando sobre variados temas. Somos mais próximos. Temos uma vinculação completamente diferente daquela realizada no ambiente do setting terapêutico. As vezes realizo escutas na escada, no banquinho da entrada, no chão da quadra, em frente ao banheiro, no meio da sala de aula e tantos outros cantinhos onde possa haver a necessidade de simplesmente falar sobre algo que não seja equação ou conjugação verbal. Tem vezes que apenas um olhar ou um cafuné na cabeça parece legitimar uma presença, fortalecer um ego. Em alguns momentos (na verdade vários) recebo abraços, risos e comprimentos, e esses energizam meu dia e o deles também. 

Atualmente vivemos numa época onde a performance, a competitividade e a cobrança por uma eficiência impecável perpassam nossas relações e o modo como encaramos nossas atividades e personalidades. Os adolescentes exigem de si (são exigidos) graus de excelências massacrantes. É doloroso as vezes ver a rotina de estudos que se submetem (são submetidas) crianças/adolescentes de onze anos. Esses jovens são alunos com notas maravilhosas e também frágeis emocionalmente, inseguros, ansiosos, excessivamente exigentes, agressivos e não percebem limites. São meninos e meninas que possuem boletins com notas impecáveis, mas que não podem ouvir um não ou que não sabem aceitar que seu colega não queria fazer algo que lhe foi solicitado. Porém, a vida não é nada simples e muito menos a escola.


Uma adolescente que tira apenas notas acima de 8 recebe seu primeiro 6. A professora passa na minha sala pedindo pra que eu vá falar com ela, pois a adolescente está chorando muito depois que recebeu a prova. Imagino de imediato "Já sei. Foi baixa" e pergunto isso a profissional; ela me diz, "Nada, foi um 6". Eu lhe digo " Ah, mas isso basta." E vou procurar a jovem. Quando a vejo ela está muito mal, a levo para a sala e ela chora, ela treme e tem a prova completamente amassada nas mãos. Pergunto-lhe o que houve e a jovem desamassa a prova e diz que tirou uma nota baixa e não consegue se conformar com isso. O mais tocante em tudo isso é que a dor e a vergonha são tão grandes que ela não consegue olhar para a nota e me mostra a prova com a parte do papel que contém o seis ainda amassada, sem possibilidade de ser vista. Nesse momento vejo o quanto a situação é delicada e fruto de imenso sofrimento.

Permito que ela chore sua decepção, que ela lamente a quebra de sua auto/hetero idealização e reafirmo para ela o quanto a vida não se trata de justiça e por mais que a gente se esforce, as vezes, as coisas não acontece como imaginávamos e não há nada que possamos fazer a não ser continuar e saber que os erros e frustrações fazem parte do percurso. Em nenhum momento pensei em lhe dizer " É apenas um 6. Veja não é tão ruim assim. Você supera fácil". Geralmente, temos o costume de menosprezar o sofrimento alheio quando ele não faz sentido para nós. Admito que tirei muitos 6 (e até menor que isso) na minha época escolar, mas ali não se tratava de mim e nem do modo como eu percebia a situação. Essa era a vivência dela e doía de uma modo visceral. Era angustiante ver o quanto ela se lamentava e como isso arrasou sua auto confiança. Vai ser preciso tempo, vai ser preciso coragem e paciência para que ela ultrapasse esse baque. Existem coisas na nossa vida que não podemos mudar, só podemos ultrapassar. E esse tipo de aprendizagem fundamental para a vida em sociedade, para a existência humana, a escola pode e deve proporcionar. A educação escolar não está de modo algum longe dessas questões.


Depois conversei um pouco com a professora sobre a situação e notei que ela ficou um pouco preocupada e ai eu lhe disse, "Não fique preocupada. Ainda bem que ela recebeu essa nota baixa. Que bom que a escola pôde proporcionar a ela esse tipo de aprendizagem. Isso é importantíssimo. Eles precisam aprender que na vida não se pode viver sem passar por situações de frustração. Agora vamos cuidar do sentido que ela/eles vão dar para isso". Na escola aprendemos sobre a vida, pois a vida não se divide e nem espera que saíamos pelo portão do colégio pra começar a se fazer presente e soberana. O que precisamos é saber como utilizar esse conhecimento de modo a fortalecer os jovens e não massacrá-los e fragilizá-los mais ainda. Essa foi uma importante lição para a pequena e para mim também.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

As pessoas costumam dar asas a sua imaginação.
Eu? Eu prefiro dar asas aos meus afetos.
Gosto de pensar que minhas emoções flutuam libertas.
Não há nada que as prende.
Não há nada que as dome.
Meus sentimentos são passarinhos
que passam sem pestanejar por corpos e seres.
Meu desejo não tem freios e que assim seja.
Que ele jamais seja reprimido a um só coração.
É bom demais amar para ser comprimido e espremido a anseios alheios.
Quanto mais solto, mas vontade de permanecer.
Eu gosto de pensar que meus afetos têm asas
e que não estão em gaiolas.
Eu gosto de amar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sobre medo.

Dos medos que possuo
procuro livrar-me de todos eles.
São minhas algemas.
São meus grilhões.
Com eles me impeço de sonhar.
Com eles permaneço na insatisfação.
Meus medos controlam minhas aspirações.
Com eles perco o controle...

Dos medos que possuo
procuro cuidar bem deles.
São minha companhia.
São meus parceiros.
Com eles tenho as minhas desculpas.
Com eles tenho garantido os meus fracassos.
Meus medos me impedem de errar além da conta.
Com eles eu acredito que tenho controle...

- poeminha retirado de vivências no acompanhamento terapêutico, pois psicoterapia é poesia. Tem gente que nasce poesia, já dizia Manoel de Barros.

Reencontrar-me no prazer de estar só.
No prazer de estar vã.
Nas minhas profundezas ressurgir inteira na confusão das imensidões.
Questionar minhas certezas tão duvidosas.
Revirar meu avesso e achar o que nem sei se está lá.

Quero poder ficar só e sentir completude.
Sentir que posso mais. Que quero mais.
Desejar. Realizar.
Satisfazer-se.
Satisfazer-me.

Reencontrar a doçura de uma lágrima.
Rememorar as fantasias.
Desconstruir sonhos.
Sentir-me intensa.
Sentir-me existente.
Sentir-me viva.
Sentir-me.

Ser.

domingo, 13 de setembro de 2015

Sou poeta.

Minha mãe não sabe, mas sou poeta.
Ou pelo menos sempre quis ser.
Desde cedo gosto de observar as coisas que não são vistas.
Leio seus mistérios e descubro o que ela teima em esconder.


Meu irmão não sabe, mas sou poeta.
Ou pelo menos sempre tentei ser.
Quando ele se afastou senti no estômago a saudade.
E até hoje não compreendo nossas distâncias.

Minhas tias não sabem, mas sou poeta.
Ou pelo menos penso que sou.
Sinto cheiro de magia quando elas se encontram.
Um tipo de calma me afeta quando estão unidas.

Minha prima não sabe, mas sou poeta.
Ou pelo menos finjo que sou.
Rio com a sua juventude.
Temo por sua esperança.

Meu sobrinho não entende, mas sabe que sou poeta.
Quando cantei para o seu sono.
Quando choro as nossas despedidas.
Quando peço a Deus, mesmo com a fé frágil,
que ilumine seu caminho e me faça poeta para encantar seus dias.




segunda-feira, 7 de setembro de 2015

As primeiras relações e seu papel no desenvolvimento infantil.

"Desça meu filho. Confie em si mesmo, rapaz. Eu num mandei você descer?!"

Ao escutar isso às 6h30 da manhã no meio de um ônibus lotado fico emocionada e encantada. Primeiro porque pensei que a mãe ia terminar o discurso na segunda frase "Confie em si mesmo, rapaz", depois por ela ter continuado e a explosão de ideias que surgiram na minha cabeça. Logo quando ouvi pensei: que coisa mais contraditória. Porém, passado algum tempo, refleti que essa sentença relatava a importância das figuras parentais no desenvolvimento infantil. Vou tentar explicar um pouco da minha ideia. 

Quando nascemos não estamos preparados para a vida em sociedade. Somos lançados em um mundo que exige de nós certos comportamentos. Precisamos aprender a conviver com os outros e com as regras e as normas sociais. A medida que crescemos nossos pais, ou aqueles que cumprem esse papel, vão nos inserindo nesse contexto complexo de relações e de auto descoberta, pois é na relação com o mundo e com as outras pessoas que vou percebendo sobre mim mesmo (ou me perdendo). Enquanto criança, experimentando e conhecendo essa experiência de ser humano preciso da afirmação de meus pais. Necessito que eles me permitam desbravar e desvendar os conteúdos e mistérios que existem por ai. Acabei de ver um vídeo de uma colega, onde seu filho, com menos de um ano, sai engatinhando pela areia da praia em direção ao mar. Ela acompanha tudo. A criança vai em disparada, chega no meio do caminho para e olha para trás. Vê que sua mãe ( e talvez seu pai também) a está observando, acena para ela (eles) e continua em frente. Ele precisou verificar se sua mãe (pais) estava ali, possibilitando o seu explorar, cuidando e acompanhando com o olhar, afirmando esse movimento de descoberta e aprendizagem, de ousadia e coragem. 
 As figuras paternas e maternas são a principal fonte de onde bebem os bebês para acessar ao mundo e consequentemente a si mesmos. Ninguém se constitui sozinho. É sempre em relação que vamos construir nossas qualidades e defeitos. Nossas mais íntimas características. Com o tempo, vamos ganhando mais poder de atuação e afirmação sobre nós mesmos, mas no começo, lá no começo da nossa história, não somos tão independentes assim. Somos imensamente dependentes, e precisamos ser. No meio dessa dependência e o modo como ela vai sendo vivida encontramos saídas. Imagino como deve ter acabado a engatinhada voraz do pequeno Bernardo. Até onde ela permitiu que ele fosse? Como ele foi retirado dessa empreitada? Ah, são tantas coisas para sempre pensadas, ou melhor sentidas. A criança pequena, mas do quê o adulto, se guia pelo sentimento. 

Algo parecido, de certa forma, ocorreu com meu sobrinho. Conta minha cunhada que ele estava brincando de chutar a bola em uma árvore no meio do parquinho. Meu irmão e ela estavam a certa distância observando tudo. Vinícius, meu sobrinho, estava inteiramente envolvido no seu brincar (como geralmente as crianças estão) e de repente, interrompendo aquela atividade de imenso prazer, rompendo com a linha do desejo e querer, a bola estoura. Meu sobrinho para assustado e de imediato vira para trás a procura dos pais. Esses estavam observando de longe, assim como minha colega, acompanhando com o olhar e permitindo seu movimento. Meu irmão ao ver o filho olhando pra eles com aquela cara de assustado diz "estourou papai, a bola" Vinícius cai no choro e corre para receber o conforto dos dois. Aqui, os pais precisam estar presentes para fortalecer o filho. Ajudá-lo a suportar a perda. Colaborar com o processo de aprendizagem sobre as frustrações. Naquele dia o parquinho terminou um pouquinho mais cedo e ele não levou a bola de volta pra casa. Fico aqui pensando como iria terminar se ao estourar a bola e se virar, meu sobrinho não encontrasse o olhar dos pais? Esses estivessem observando qualquer outra coisa. Como seria para ele?

A mãe quando disse ao seu filho, "Desça meu filho. Confie em si mesmo, rapaz. Eu num mandei você descer?!", não estava se contradizendo, muito pelo contrário. Estava afirmando a importância que tem para a construção da autoconfiança do filho. Aqui ela se fez presente e assumiu sua função. É fundamental que os pais saibam o quanto são colaboradores no processo de personalização de suas crianças. São os pais que dão, inicialmente, as condições, saudáveis ou não, para o desenvolvimento da autoestima e autoconfiança dos pequenos. Não é apenas no discurso que essa influência se faz presente, na verdade, ela ultrapassa o uso das palavras. É no modo como a relação se dá. Na forma como os pais se colocam diante do filho, do mundo e dos outros. A criança para além da linguagem ela capta as atitudes, os desejos satisfeitos e os insatisfeitos. Não é tarefa fácil relacionar-se, vamos admitir. Porém, a coisa boa, é que sempre há tempo para mudar. Para ampliar-se e o melhor, aprender.

Foto: Jonas Araújo

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...