segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"Toda beleza e sublimidade que atribuímos a objetos reais ou imaginários reinvidico como propriedade e criação do homem. Elas são sua mais bela justificação. O homem como poeta e pensador! O homem como Deus, como amor, como poder! Com que generosidade real ele se empobreceu e se fez infeliz para adorar coisas. Até o presente, sua maior baixeza foi ter admirado e venerado as coisas, esquecendo que foi ele quem criou o que admirou."
(Friderich Nietzsche)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pelo direito de ser infeliz o/

Às vezes eu fico me perguntando se as pessoas são realmente felizes o quanto elas dizem que são. Vejo pessoas cuspindo felicidade pelas redes sociais e isso causa em mim certo estranhamento. Você escolhe as melhores fotos dos melhores dias, as melhores poses, os melhores lugares, só pra mostrar que você é sim, muito feliz, como as famílias nos comerciais de margarina. Sinto-me envergonhada, em alguns momentos, quando olho minha página no orkut e o que vejo ali é algo falso que não condiz de maneira alguma com a minha realidade. Então, eu penso um pouco, e talvez seja assim com os outros também. Não sei ao certo, mas parece que há uma necessidade de demonstrar uma estabilidade emocional extremamente irritante. A consequência disto é que estamos perdendo o direito à infelicidade.

Vamos amigo, levante a cabeça, você é forte, existem pessoas com problemas maiores, vamos meu querido, sacuda essa poeira dos ombros e dê a volta por cima. Quem nunca ouviu um desses conselhos? Já é típico. Fico rindo algumas vezes quando alguém vem desabafar comigo e falar de suas tristezas e a única coisa que digo é: é assim mesmo. Pois é, é assim mesmo e essa não será a última vez que a vida vai te deixar de cabeça pra baixo. Aprenda a sofrer.

Odeio quando as pessoas rejeitam sua dor e te suprimi de expressão. Deixam-te sem graça para ser triste. Esse tipo de atitude vem se espalhando de uma forma assustadora. Não é permitido sofrer. Fala-se muito em tirania da beleza, mas a tirania da felicidade?

Na atualidade a mensagem que vem sendo passada é a de que a felicidade é um direito irrevogável ao ser humano. Nós merecemos ser felizes. Porém, na realidade, as coisas não são assim. Viver é um risco sem garantias. Não somos merecedores de nada. Temos que lidar constantemente com o imprevisível e isso significa que não podemos controlar os fatos que ocorrem na nossa vida. Consequentemente iremos sempre nos surpreender e ter que sair de uma posição de conforto para outra onde há a falta de sentido. Estamos sempre nos reinventando, ou seja, o tempo todo em mudança vivenciando os mais variados tipos de emoção. A felicidade é uma meta que nunca será concretizada plenamente.

Dessa forma, é como se o sujeito estivesse constantemente engasgado sem poder falar sobre suas dores, frustrações e sofrimentos. Essa cultura do hedonismo e da juventude feliz e eterna está sufocando e mascarando cada vez mais as pessoas. É como se o indivíduo vinhesse ao mundo com um único dever e este é de ser feliz em tempo integral. Não se pode reclamar da vida. "Olhe para o lado e veja que a vida de outro alguém está em pior condições que a sua, então, não reclame, não é justo." Pronto. Assunto resolvido. Acabou, não se fala mais nisso. Parece que estamos sempre ouvindo aquela frase dita pelas mães aos filhos que choram irritantemente: "engula o choro". Pois é, desde cedo aprendemos a suprimir nossas emoções e a falsear nossos sentimentos para nos encaixarmos em um padrão de vida que não se encaixa em nós.

Ser feliz tornou-se um dever, mas acontece que a felicidade é um estado de espírito que é incerto e inconstante. E essa é mais uma exigência social que ultrapassa a capacidade do ser humano. O que vejo por aí são sujeitos perdidos nesse jogo de quem ri mais e simplesmente não conseguem lidar com a dor que habita o peito e não se sentem no direito de derramar algumas lágrimas pelas agruras do dia-a-dia que tanto machucam sua carne cansada. Essa ditadura da felicidade é produto do ideal cultural de nossa sociedade. Seus efeitos são bem maiores do que isso que expresso com poucas palavras e uma pitada de ingenuidade, admito.

Cada vez mais vejo que as visitas aos consultórios terapêuticos e os transtornos mentais vem aumentando e isso é um sintoma dessa postura de repressão das lágrimas e reclamações. A nossa única saída é recorrer aos especialistas da dor e aos becos escuros de nossa mente.

Duas medidas e um peso

E de repente não existe mais nada de particular. Procuro um ponto em comum, mas não há nenhum. Busco no interior vestígio de algo que já fez parte do todo e deparo-me com um estranho. Nem sei dizer se é um reflexo deformado ou outro alguém. Aquele Eu que se satisfazia, ver-se curvado agora a outro estranho que tornou-se Eu. Sou o avesso de mim mesma.

Nesse espetáculo da vida cotidiana não sei mais separar o ator do personagem. Tenho a sensação que estou perdida. As diversas máscaras que usei ao longo da vida fundiram-se com o meu verdadeiro Eu. Risos e abraços são ilusões, sinceros ou não. O que fazer? Meu ser não está fragmentado, ele está mesclado. Como posso encontrá-lo então? Não tenho pedaços a recolher. Está tudo grudado. A sensação de viver um teatro tornou-se fato.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um dia inesperado.

Vou falar algo idiota, mas acho que vale a pena. Hoje mais do que nunca percebi como o seu estado de humor influência sobre o ambiente que você frequenta. Como Kierkegaard dizia (mais ou menos), a moral que cria o ambiente e não o contrário. E foi exatamente isso que aconteceu. O fato de eu estar "feliz" fez com que a ida a um lugar que não me agrada fosse, resumidamente, bom. Cada dia mais vejo que a verdade não está nas coisas e sim na interpretação que você dá a elas. Somos crenças e valores e é isso que faz as coisas serem o que são. A verdade está em nós. As coisas não dizem nada sobre elas. Somos nós que damos o sentido, o significado, o valor ao mundo e não o contrário. Notei que não adianta sair da minha casinha me sentindo um lixo buscando a felicidade nos ambientes, pois eu não vou encontrar porra nenhuma lá fora. E posso garantir que se mesmo assim eu ainda me divertir vai ser falso, pois quando chegar em casa vou lamentar. A felicidade vivida para fora iludi, não preenche, não realiza nada.

Pode não parecer, mas hoje eu aprendi uma grande lição de algo simples, mas extremamente significativo. O dia foi produtivo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Um tapa sem mão.

Lembrei-me de uma cena. Era 13:oo hrs e fui pegar o ônibus numa praça que é povoada por moradores de rua. Existem vários, crianças, adolescentes e adultos, todas as idades, e todos "cheiram cola". Pois bem, enquanto aguardava meu ônibus junto com outras pessoas, um deles se aproximou e começou a pedir "umas moedinhas" e ninguém deu. Contudo, havia uma senhora atrás de mim que estava contando as moedas para a passagem, e então, ela não pôde negar, pois foi "flagrada" com o dinheiro na mão e com medo deu, mas antes do "moleque" (que na verdade já era um homem formado) ir embora, ela falou com a amiga do lado: Poxa, minha passagem. E, simplesmente, o "trombadinha" voltou, perguntou a ela como ficaria sem a passagem e, após perceber a situação, devolveu o dinheiro a senhora e foi embora.

Posso dizer que fiquei impressionada. Eu nunca imaginei que um morador de rua "cheirador" de cola poderia ter tal atitude. Foi um tapa na cara. Percebi nesse momento que o preconceito cega e isso é tão óbvio que chega a ser ridículo. Disseram-me que o preconceito não é de todo sadismo, pode representar também um certo instinto de sobrevivência que tenta nos preservar. Fiquei remoendo isso na minha mente e posso dizer, depois de lembrar dessa cena, que esse instinto de sobrevivência é sádico.Sei que não saio por aí queimando mendigos, batendo em homossexuais, "esculhambando" negros e pisando em pobres, mas o preconceito que eu manifestei naquele dia (e em outros) foi também, pois, eu anulei a identidade daquele indivíduo. Eu neguei a ele o seu direito de ser quando o julguei por algo que ele não é. Eu, por medo (admito), não lhe olhei nos olhos, segurei minha bolsa com força e rezei pedindo para que ele não tivesse nenhuma manifestação criminosa. E ele, simplesmente, mostrou-me que é humano, que não é um estereótipo e que é sensível apesar de não ser alvo de sensibilidade.

Pois é, mesmo quando o preconceito é aparentemente inofensivo e explicável (o aumento da violência, por exemplo) ele é cruel, muito cruel, com quem sofre e com quem comete.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Aonde foi que nos perdemos?

Não há palavras. Só existem sentimentos confusos. Houve um instante, um detalhe, algo que passou despercebido e a partir de então tudo mudou. Deve ter sido algum gesto, uma palavra, um silêncio, um olhar, um sorriso, uma conversa, de fato não sei o que o fizemos para chegar a tal situação. O pior de tudo é que não há dor, não há lágrimas, não há nada. Esse vazio é o que pertuba. Estou em busca por algo que explique como chegamos aqui, nesse momento, tão frios e tão secos que não conseguimos chorar pelo final daquilo que havia de mais belo em nós.

É inexplicável. Em algum lugar do percurso desviamos de uma pedra e nossas pernas perderam o compasso. Estamos caminhando na mesma estrada mas nunca chegaremos no mesmo lugar. O seu olhar tornou-se um buraco negro que tudo suga para si, mas não se sabe o que há do outro lado. Todas as perguntas sem respostas. Todas as respostas sem sentido.

Olho para trás procurando algum vestígio que me diga o que houve para nós. O que foi que fizemos que nos trouxe até aqui ? Infelizmente, a estrada atrás de nós se deteriora a cada passo que damos e não há mais como voltar para averiguar as circunstâncias. O que me resta é tentar encontrar nas lembranças algo que fundamente o presente. Aonde foi que nos perdemos?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sociedade do espetáculo e da ostentação.

“O sucesso tornou-se um meio ‘naturalizado’ ou ‘socializado’ de construção de identidade pessoal. A diluição do sujeito na moral do consumo e do mercado faz do sucesso uma das poucas condições de posse da admiração do outro. (...) A angústia do anonimato causa inveja do sucesso e avidez pela publicidade por que o sucesso é praticamente o único modelo de individualização deixado aos indivíduos. Modelo que reafirma a importância da posse de objetos de consumo como espelho identificatório. Eu sou aquilo que possuo, e quanto mais possuo, em qualidade e quantidade, mais sou bem-sucedido.” (COSTA, Jurandir Freire. 1994, p.47)


Nos tornamos artigos de vitrine.

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...