sexta-feira, 13 de julho de 2012

A terapia de todos os dias.

A um bom tempo venho pensando sobre psicoterapia. Como faço psicologia converso com meus amigos bastante sobre isso e outros assuntos e uma coisa que nos inquieta é quando alguém nos pede para explicar o que é terapia, o que acontece, como é. Nós não nos contentamos com a celébre resposta: Faça e descobrirá. Para nós não é tão simples e também não é tão complicado. 

Quando enunciada tal palavra a primira imagem que vem a cabeça é a do psicoterapeuta, do espaço terapêutico e a do cliente/paciente. Podemos dizer que essa tríade dá base para o entendimento do que seria uma psicoterapia. No entanto,  não a acho suficiente e talvez seja equivocada. 

Penso em terapia como transformação, como reflexão. O pensar de si em si. É algo que vai além das paredes da clínica e que independe dela. Acredito que seja um erro restringir esse processo a uma sala. Seria enganoso e perigoso essa linha de pensamento. Colocaria os profissionais em uma situação pretensiosa, pois seriam mais que fundamentais, seriam determinantes para o desenvolvimento do processo, o que não é verdade. E os clientes poderiam depositar suas crenças e energias em alguns minutos ou horas por semana para pensar e refletir-se dentro de um ambiente seguro e transformador, o que não deve ser verdade.

Não digo aqui que minha profissão é irrelevante. Que um espaço terapêutico é insignificante. Ambos são importantes para possibilitar ao cliente um olhar diferenciado, uma escuta acolhedora, uma fala refletora que pode dá a oportunidade para que ele pense em si e na sua história de maneira mais clara e responsável. Porém, a terapia pode e deve acontecer na ausência dos dois primeiros. Terapia ocorre na vida, no cotidiano, nos sonhos, no dia-a-dia. Em cada gesto, nas decisões, nas mudanças, nas dores e alegrias, nas conversas e no silêncio, no pensamento que liberta, desilude e ilude novamente.

Somente quando o indíviduo consegue pensar em si mesmo que se pode dizer que está acontecendo uma psicoterapia. É um pensamento que o move, que promove mudança. É algo singular, único, pessoal e independente. Somos, nós terapeutas, facilitadores, acompanhantes de uma jornada, ativadores de um processo que se dá no interior de cada sujeito. Terapia é quando alguém consegue lidar com suas questões indepentemente, sem se amarrar a um protetor ilusório e detentor do saber. 

Esses fatores podem ocorrer com alguém que jamais procurou um profissional da dor. Alguém que não faz idéia do que é uma psicoterapia. O ser humano está em constante mudança. O mundo é seu espaço terapêutico. A vida é seu terapeuta. Alguns esqueçem disso e às vezes é suficiente lembrá-los. Outros não sabem lidar consigo e com nada disso, no entanto nunca é tarde para descobrir. Ampliar as fronteiras e destituir de nós o poder de prover psicoterapia para os outros é fundamental para que ela passe a ser reconhecida como um processo natural do humano. Basta que cada um passe a se responsabilizar por sua história. Perceber a si em si. Todos os dias e a todo instante existe alguém passando por um processo terapêutico sem fazer ideia disso.

Para alguém que ainda não é...

Para mim você ainda não existe. Nesse instante você não é real. E isso se deve ao fato de não ter sentido seu cheiro. Não vi seus olhos brilharem. Não pude ver os músculos do seu rosto se esforçando para esborçar um sorriso. O barulho que sai da sua boca não chegou aos meus ouvidos. A textura da sua pele é desconhecida pelo meu tato. Ainda não o acalentei em meu braços. Não sei do seu choro. Nunca pude conter suas lágrimas. O tamanho dos seus pés. O comprimento das suas mãos.O peso de seu corpo. O jeito de dormir. Poder observá-lo descobrir cada detalhe de si e do mundo. Nada disso para mim é real.Você ainda é uma ilusão. Uma ideia. Um sonho.

Tenho medo de desfrutar da realidade por breves momentos e ter que ver tudo ruir. Pois, não poderei mais me esconder atrás das fantasias. Terei que lidar com o fato de nada ser como imaginei que poderia. Terei que encará-lo, irei sentí-lo e ver minha imaginação perder forma. Tenho medo de vê-lo, pois não saberei ter que adaptar meus desejos e vontades a essa situação. E é assim que as coisas são. Continuo sonhando.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

As magricelas

E lá vai ela, a menina magricela com suas pernas finas e a pele amarela.
Corre por aí sem se preocupar com o tempo.
Brinca de bola, pipa e peão.
Cabelos soltos, roupas largas.
Olhos castanhos e saltitantes.
Não sabe o que vem pela frente.
Não se importa com o que passou.
Sente apenas o presente.

E lá vem ela, a mocinha magricela com suas pernas finas e a pele amarela.
Corre por aí se preocupando com o tempo.
Já não brinca de bola, pipa e peão.
Pensa em química, matemática e no Gustavo.
Cabelos amarrados, roupas apertadas.
Olhos castanhos e vibrantes.
Não sabe o que vem pela frente, mas espera por tudo.
Não se importa com o que passou, mas tem medo do que irá deixar pra trás.
Sente o presente, porém tenta ver além.

E cá está ela, a mulher magricela com suas pernas finas e a pele amarela
Corre por aí lutando contra o tempo.
Jã não brinca.
Pensa nas contas, no trabalho e na família.
Cabelo curto, roupas arrumadas.
Olhos castanhos e cansados.
Não sabe o que vem pela frente, mas planeja tudo.
Já se importa com o que passou.
Sente o presente, o passado, o futuro.

E no passar do tempo
Vê seu tempo passar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Olá! Boa noite.
Deem licença agora que vou recitar-me.
Falarei da alma
Discursarei sob o corpo
Comentarei das vestes que iludem os moços.
E o que cobre o rosto?
Relatarei também.
As máscaras, as marcas, as farsas
Revelarei sem desdém.

Com medo, com senso e sem consenso
Direi o que não ouso.
Na covardia que os versos escondem
Serei coragem oculta.

E não sou culta para fingir valores.
Por isso, meus amigos, com licença, pois hoje vou recitar-me.

domingo, 17 de junho de 2012

Teatralizando, mascarando e vivendo.



Dias atrás participei de uma oficina de máscaras em grupo de teatro amador do qual sou integrante. Tínhamos como finalidade produzirmos máscaras de gessos no rosto de um colega e vice-versa. A experiência desse momento me submeteu a diversas reflexões. Enquanto estava sentada e o meu parceiro de grupo colocava vagarosamente as folhas de gesso sobre meu rosto procurei ficar calma. Rapidamente minha boca foi silenciada e em seguida meus olhos foram fechados. Não podia sorrir, não podia chorar, nem fazer movimentos bruscos. Diante de tal situação busquei concentrar-me no que estava sendo feito e meus pensamentos alçaram voo. Fomos solicitados a pensar no conceito de persona e como um gatilho ativou minhas ideias e meus sentidos para tudo o que estava sendo vivenciado ali.

Recordei-me das aulas sobre a teoria junguiana e o conceito de persona. Lembrei-me também de Winnicott e o falso-self. Notei que quem estava a montar minha máscara não era eu, mas sim um outro. Ele moldava o gesso aos traços do meu rosto à sua vontade e aos limites da minha face. Ela seria o resultado do nosso encontro e o produto seria fruto de nós dois.

 Várias camadas foram colocadas sobre minha pele. A primeira foi fria e causou desconforto, mas logo me adaptei, pois era leve. As seguintes iam se destacando em relação ao peso, porém o frio não era tanto e estava mais acostumada com a sensação que elas proporcionavam. Ao longo do processo sentia-me mais afastada, mais interiorizada. Algo estranho estava se formando no meu rosto, destacava-se, distanciava-me. Já não estava mais a vista. Escondida sob uma montanha de gesso sentia-me a vontade, arrisquei até uma dancinha com os braços, claro que com cuidado para não machucá-la.

Com o passar do tempo tive que me concentrar na respiração. O peso era algo que chamava bastante atenção. Às vezes ficava ansiosa. Sentia-me presa. Voltava os pensamentos para a respiração e procurava confiar no meu colega. No entanto, ele cometeu uma falha: estava tampando meu nariz. Quando adicionou mais uma camada a essa região percebi que aquela pequena passagem de ar foi interrompida e comecei a sufocar. Passei a respirar com mais força, mas não havia ar. Os outros integrantes perceberam e após poucos segundos abriram um pequeno buraco e pude respirar novamente. Contudo, nesse meio tempo não fiquei nervosa. Respirava fundo para tentar abrir uma passagem pela lateral e esperar alguma solução. Pensava apenas em não arrancar a máscara naquele momento, pois a estragaria. Ela já pertencia a mim e eu a ela.

A fase final do processo foi particularmente interessante. Outro membro do grupo veio ao meu ouvido e sussurrou uma série de frases. Pedia que fizesse alguns movimentos com o rosto, que tocasse calmamente a máscara e sentisse que aquilo não era mais eu, era qualquer outra coisa criada a partir de mim. Foi aos poucos a soltando de minha pele e disse que da mesma forma que a construí poderia me desfazer dela, não pude me conter e as lágrimas rolaram.

Pensando em como se dão os relacionamentos na sociedade e o desenvolvimento da personalidade humana, essa experiência que descrevi é um reflexo desses pontos. O convívio social exige de nós alguns artifícios e estes nos ajudam a nos adaptarmos ao mundo e às suas regras, valores e crenças.

A máscara no teatro tem várias funções e entre elas está a de preservar o ator dos olhares do público podendo ele observá-lo livremente. Esse instrumento desrealiza a personagem, pois introduz um elemento estranho entre o ator e o espectador que interfere na identificação deste com aquele. Ela é usada frequentemente quando a encenação busca evitar uma transferência afetiva e distanciar o caráter e será apenas no conjunto da encenação que seu uso fará sentido.

        No cotidiano, assim como no teatro, nos valemos de máscaras que colaboram para a vida social e preservação do nosso eu. É completamente saudável e compreensivo o uso destas. Contudo, quando se trata do humano nada é tão simples quanto parece. Aquilo que um dia foi saudável e colaborativo pode se transformar em um empecilho para a vida social e pessoal. Caberá a cada um saber utilizar sua mascará de forma que não se venha perder por trás dela ou confundir-se. Ela pode e deve sair do rosto quando for conveniente. É fundamental saber retirá-la e fazer cenas com o rosto nu.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Palavra corpo.

Em cada pulo uma gota de suor caí ao chão.
Em cada salto uma gotícula se dissipa no ar.
Seu corpo cansa, dói, seu corpo ri.
A energia flui.

Os ossos são estralados.
Gemem.
Dançam.
Como nós, são desenrolados.

A respiração desce e sobe
Falta e sobra
Prende e solta.

No movimento parasse tudo.
O que há dentro escorre pelos braços, testa e busto.
No bater dos pés ouvisse o que estava mudo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Agulha de Bússola

E no compasso acelerado de meus passos fui em busca de uma poesia.
Seguindo o ritmo das batidas do coração procurei uma rima.
Com suor tentei misturar lágrima e encontrar algo doce.
Pensei que os movimentos das pernas poderiam cessar os pensamentos.
A dor do corpo cansado confundiria-se com o peito amargurado.
E nesse chão de barro corri todas as mágoas que o fôlego permitiu.


O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...