sexta-feira, 28 de março de 2014

A vida velada dos sentimentos

Meu trabalho de conclusão de curso (psicologia) foi sobre tristeza e que esse sentimento pode ser fonte de crescimento e amadurecimento pessoal. Na verdade, busquei legitimar esse sentimento como fenômeno que faz parte da existência humana e que não pode ser rejeitado ou negado como vem sendo atualmente na sociedade. Trabalhei com a hipótese de que o sujeito ao tentar mascarar ou reprimir o sentimento de tristeza em busca de alívio ou felicidade conseguirá o exato oposto. Cada vez mais que negligenciar esse sentimento só se tornará mais frágil e despreparado para lidar com o mesmo e com situações desagradáveis na vida. 


O que quero dizer nesse texto que escrevo agora é que não é apenas o sentimento de tristeza que possibilita crescimento ao sujeito, mas todos os nossos sentimentos são fontes de amadurecimento. E quando digo todos, quero dizer todos mesmo. Temos na nossa sociedade o infeliz hábito de rejeitar sentimentos que tenham o caráter negativo, como por exemplo, a tristeza, a raiva, a inveja, a ganância, a vaidade dentre outros. Desde cedo somos levados a acreditar que tais sentimentos não são dignos e que devem ser retirados da nossa vida. Além do mais, a vivência dos mesmos causa bastante desconforto, eles são dolorosos, despertam incômodos e criam conflitos internos e/ou externos. Existe ainda em nossa cultura a pobre ilusão de que a vida é toda prazer e que a felicidade passa a ser algo a ser alcançado a todo custo e inabalável. Infelizmente (ou felizmente) a própria vida nos mostra que não tem como passar pelo mundo sem experimentar frustrações e com elas toda a gama de sentimentos negativos possíveis.   


Qualquer sentimento humano é legítimo, ou seja, digno de ser vivenciado e respeitado. A grande questão não são os sentimentos, mas os comportamentos que temos diante deles. Lembro de um momento na graduação quando uma amiga tira uma nota maior que a minha na apresentação de um trabalho. No instante que vi sua nota foi inegável, eu senti inveja dela e prontamente comentei meu sentimento. Todos rimos da situação. A minha inveja era legítima, apontava para alguma necessidade minha que precisava ser satisfeita ali, talvez reconhecimento, talvez massagear minha auto estima e tantas outras coisas. Todo meu ser respondia a alguma necessidade que era apontada pelo sentimento de inveja, e o quanto era importante pra mim perceber o que ele me comunicava, saber o que eu estava vivenciando naquele instante. A grande questão como eu disse é nosso comportamento frente a tudo isso. Eu não corri atrás da minha amiga e a empurrei da escada, ou simplesmente toquei fogo na caderneta ou sei lá mais o quê. Talvez por negarmos a vivência de tais sentimentos é que agimos de modo tão imaturo diante deles. Precisamos entender que o outro não tem que dar conta de nossos sentimentos e muito menos de nossas frustrações. Precisamos ser responsáveis por aquilo que sentimentos e respeitarmos o que nosso ser nos comunicar a cada sensação sentida.

Estive pensando esses dias sobre tudo isso e refleti o quanto os sentimentos positivos (alegria, felicidade, amor, compaixão e etc) nos mostram as possibilidades da vida humana, tais sentimentos são sentidos como abertura do nosso existir. Quanto aos sentimentos negativos eles nos apontam os limites da vida humana, demonstram o vazio da existência. E hoje, nos tempos atuais, o homem se ver completamente despreparado para suportar esse aspecto da realidade. Não sei se em outros tempos fomos tão repulsivos a dor de viver a vida como ela é. Queremos apenas nos divertir e esquecemos que no meio da brincadeira existem os machucados e que as vezes é preciso dar um tempo na diversão pra cuidar de si próprio e voltar mais fortalecido pro parquinho. Quando não cuidamos de um machucado não conseguimos nos divertir bem e acaba que algumas vezes sobra para nós o papel do café com leite na brincadeira (quem se lembra dele?). Todos nós sabemos que não tem graça alguma ser o café com leite, pois o café com leite apenas fingi que brinca, na verdade ele não participa do jogo. Existe muita gente vivendo como café com leite, pois tem medo de parar e lidar com seus machucados, com suas confusões. 

Estou lendo o livro O drama da criança bem dotada - como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos de Alice Miller e quero dizer que ele é fantástico. A autora vai mostrando que muitas vezes na infância abdicamos de ser nós mesmos para satisfazer as vontades de nossos pais/cuidadores e também para nos proteger. Crescemos negando grande parte do nosso eu, pois acreditamos que essa seja a melhor forma de sobreviver naquele ambiente. O problema é que quando crescemos esquecemos o que nos levou a ter tais comportamentos e acabamos nos habituando àquele modo de agir, e o reproduzindo sem ter ideia dos motivos. Nas palavras de Alice Miller (1997) "A acomodação às necessidades dos pais, em geral leva (mas nem sempre) ao desenvolvimento da 'personalidade como se', ou ao chamado falso self. A pessoa desenvolve uma postura na qual apenas mostra o que é esperado dela, fundindo-se a essa imagem" (p.23). Perls, fala desse fenômeno como formação de caráter. Para ele, "A maioria das pessoas vive apenas em função da imagem. Onde algumas pessoas têm um self, a maioria das pessoas tem um vazio, pois estão muito ocupadas em parecer isso ou aquilo. Isto, outra vez, é o tormento do ideal - o tormento de que você não deve ser o que você é" (1977, p.38). Trago esses trechos para refletir que o papel da terapia é de ajudar o sujeito a "encontrar" seu verdadeiro self, ou como diria Perls, passar a agir de acordo com seu processo de auto-regulação organísmica, que significa realizar suas escolhas pautado no próprio desejo tomando consciência da necessidade que se mostra mais emergente no seu organismo.

Basicamente, a terapia nos ajuda a não mais menosprezarmos nossos sentimentos e nem os tratarmos com ironias. O processo psicoterapêutico nos ajuda a encontrar a verdade do nosso desejo e a desenvolvermos nosso potencial. Respeitar e aceitar os nossos sentimentos é um dos passos que no leva a ter consciência de quem realmente somos e não de quem gostaríamos de ser e/ou de quem gostariam que fôssemos. "Dessa forma, descobrimos que o verdadeiro self, após décadas de silêncio, pode com a recém-conquistada habilidade para sentir, despertar para a vida" (MILLER, Alice. 1997, p.26) e finalmente compreender que "'Posso ser feliz ou triste sempre que algo me faça feliz ou triste, mas não preciso parecer alegre para ninguém e não preciso reprimir minha aflição, meu medo, ou outros sentimentos para corresponder às necessidades de outras pessoas" (Idem).

Para finalizar deixo as palavras do poeta,
"O senhor teve muitas e grandes tristezas, que passaram, e me diz que até a sua passagem foi difícil e desenganadora. Mas, por favor, reflita: essas grandes tristezas, não terão passado, antes, pelo âmago de seu ser? Muita coisa não terá mudado dentro de si? Algum recanto de seu ser não se terá modificado enquanto estava triste? Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz. Como as doenças tratadas superficialmente e à toa, elas apenas se escondem e, depois de leve pausa, irrompem muito mais terríveis. Juntam-se no fundo da alma e formam uma vida não vivida, repudiada, perdida, de que se pode até morrer" (RILKE, Rainer Maria. 2001, p.65).


Referências:

MILLER, Alice. O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo: Summus, 1997.


PERLS, Frederick. Gestalt-terapia explicada. 2º ed. São Paulo: Summus, 1977.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristovão Rilke. São Paulo: Globo, 2001.

terça-feira, 18 de março de 2014

Não acredite no que ver de mim.
Gosto de brincar com seus olhos.
Não confie no que ver de mim.
Eu manipulo seu olhar.
Tente apenas sentir o que não há
Veja o que não é.
Eu me escondo no sorriso da retina
que brilha no esconderijo da pálpebra

Perceba.
Sou quando não sou o que quero ser.
Então, não confie no que ver de mim.
Estou apenas representando desejos.
Me veja despida de vontade e
saberá o que carrego de verdade.
Acredite, não há em mim
nada que não queira ser alguém.
Esqueça o quer ver de mim.
Creia apenas nos meus mal vistos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014



Deixei de contar os dias da tua ausência. Agora quando paro para pensar no tempo só sei que faz mais de um ano que tu fosse embora. Saber os dias não faz mais diferença, o que realmente importa é que não há mais. Você decidiu abraçar a morte e independente de quanto tempo passou e passará, não há mais nada a fazer que não ser viver com esse silêncio e diversas perguntas. Mas tá tudo bem, as coisas vão acontecendo de um modo que te faz seguir em frente, é que as vezes a gente olha para trás e se pergunta: E se?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Que seja incerto enquanto dure.

"Na duvida, ninguém desespera" (JACOBSEN, Jens Peter. 2003, p. 65).

A primeira vez que li essa frase fiquei estarrecida com tamanha absurdidade, pois era comum a mim se corroer entre as diversas dúvidas. Não a aceitei e rapidamente a rejeitei, no entanto, ela volta e meia retornava aos meus pensamentos. Demorou até que eu começasse a ter uma nova postura sobre ela e talvez tenha começado a me aproximar do sentido do autor. Hoje essa frase faz parte do meu vocabulário para entender as coisas do dia a dia.



"Na dúvida, ninguém desespera" retrata, na minha opinião, a existência do homem livre, do homem que é responsável pela construção do seu projeto de vida. Essa citação revela a pluralidade da vida e o quanto para nós é necessário e imprescindível realizar escolhas. Em uma aula na faculdade sobre saúde mental comentei dessa frase e disse que para mim, a doença mental, era a impossibilidade de realizar escolhas. Comentei que acreditava que o sujeito adoecia quando se via sem alternativas para trilhar o seu viver. Era a certeza irremediável que levava a pessoa a enlouquecer. Enquanto houvessem saídas, possibilidades, o sujeito teria perspectivas, mas quando se percebia encerrado em uma situação, perdia-se. 



Na dúvida, ninguém desespera, pois a dúvida indica que existem oportunidades de mudanças e mudanças são chances de crescimento. Eu sei o quanto nossas dúvidas podem causar desconfortos. Eu sei que a dúvida remói o ser e nos machuca quando é provocadora demais. Também sei que a dúvida pode nos paralisar. Contudo, na dúvida padecemos do mistério que há no além de cada decisão. Sentimos, na dúvida, o medo do não saber o que virá depois e também o medo de perder o que já é. Isso tudo nos mostra que temos um caminho a prosseguir, uma história para escrever. Na dúvida temos medo da nossa capacidade de realizar as coisas e da imprevisibilidade dos fatos que independem da nossa vontade e desejo. 


Penso agora numa analogia que é bem simples, mas acredito que engloba bem o que venho falando. Imagine que a vida são as estradas, ruas e vielas de uma cidade. Nós temos que percorrê-las sempre em frente, sempre em caminhos que nunca percorremos, pois, não dá para voltar, já que a medida que andamos o percurso percorrido se apaga atrás de nós. Às vezes encontramos lugares parecidos com outros visitados, mas nunca são os mesmos. Enfim, passamos o tempo todo caminhando, entrando em ruas, becos, estradas e a cada passo não sabemos muito bem o que vamos encontrar a frente, mas enquanto há estrada estamos caminhando. Algumas são mais preservadas que outras, existem umas mais estreitas, outras com esgoto a céu aberto, ruas de barro, estradas esburacadas e sei lá mais o quê. Temos medo a cada esquina, pois não sabemos o que iremos encontrar. Alguns são mais audaciosos que outros, mas volta e meia se questionam sobre qual caminho percorrer. Outros não querem seguir, mas precisam pois não dá pra ficar parado. Até que de repente, dobra-se uma rua e se encontra sem saída. Não há para onde ir. O caminho vem se desmanchando aos seus pés. Que desesperador deve ser perceber que tudo está ruindo e que não se vê para onde ir.

A certeza é fim. A dúvida é o anúncio de um começo. "Só quando a última porta se fecha à nossa frente é que se cravam em nosso peito as geladas garras da certeza, que pouco a pouco penetram, já dentro do nosso coração, a finíssima teia da esperança da qual pende a nossa felicidade. Então rasgam-se os fios dessa teia, então cai e só então é destruído o que eles antes sustentavam, e então ecoa agudo pelo espaço o grito de desespero." (JACOBSEN, Jens Peter. 2003, p. 65). Aqui o autor fala da esperança e do quanto ela é alimento para nossas paixões e anseios, do quanto a nossa felicidade se apoia nessa fina teia chamada esperança. Na dúvida, ninguém des-espera. Há na dúvida a esperança por algo que ainda não se sabe o quê, mas se espera, por mais incerto que seja. Ninguém des-espera enquanto ainda há dúvida sobre o que há pra ser.
 
Com isso recomendo o conselho do poeta Rilke (2001), "Sua dúvida pode tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora, talvez a mais sábia de quantas que cooperam na construção de sua vida" (p.74).



Referências:

JACOBSEN, Jens Peter. Niels Lyhne. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristovão Rilke. São Paulo: Globo, 2001.




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014





Quando morrer, a única coisa que quero levar da vida é a sensação de não tá levando nada.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014


Que minhas palavras escritas possam falar aquilo que há de indizível no meu ser.
Que elas reflitam o que falta no meu corpo.
E expressem os silêncios dos meus lábios
Que mostrem as cicatrizes ausentes da minha carne.
Que possam fazer dos meus sonhos, realidade.

Que minha escrita liberte os meus monstros
E desperte os meus males.
Que ela transforme meus sóis em tempestades
Que dance com minha fantasia
E brinque com os meus sentidos.

Que a escrita deixe transparecer o perdido de mim
e que eu conheça o mais que existe no que ainda não.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Iluda-me, por favor!

E ela preferiu encarar a mentira confortadora
do que se deparar com a verdade devastadora.
Se agarrar a ilusão pra não morrer
com doses de desilusão
Quem a pode julgar?
Só prefere a realidade
aquele que não consegue sonhar

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...