domingo, 8 de dezembro de 2019

Quando lembro de nós sussurro.
Recordo do toque.
Tuas mãos que percorrem sem pudor minha pele.
Através delas redescubro partes do meu corpo que escapam na correria do dia a dia.
Nas tuas mãos sou mistério a ser desvendado.
Gosto como tu brincas com minhas charadas.
Sempre sedento se debruça sobre minhas pernas e lá permanece em compasso.
Mantém o ritmo das batidas de nossos corações.
E o coração? Esse acelera.
E quanto mais bate, mais balançamos unidos. Tão juntos que confundimos o hálito.
Ali ...
Aqui, não existe mais nada além de nosso suor que escorre até encontrar no gozo o seu sossego.

Maria dos Prazeres

terça-feira, 30 de julho de 2019

A vida está passando. A minha vida está passando. Todo dia é um dia que passa por mim. Há dias que sinto-me viva, outros apenas respiro e sigo. No peito de repente surge uma angústia. Um medo de não ter tempo. Afasto a ideia, mas fica guardado na memória: o tempo está passando. E me pergunto, como estou passando pela vida? Definitivamente tem dias que passo sem notar que tenho vida. Acho que não conseguimos aproveitar todo dia que em que a vida passa. Apenas passo. Há vida passando em mim, eu sei, eu reconheço. Existem momentos onde paro e curto o tempo que passa por mim e sou plenamente passagem. Nesses instantes contemplo e me vejo história. Tem dias que durmo, outros acordo, até o dia que não haja mais.

sábado, 15 de junho de 2019

O lugar do trabalho pessoal para o psicólogo.

Na faculdade de psicologia se fala bastante sobre a necessidade do psicólogo fazer terapia, pois assim, ele não irá confundir ou misturar seus conteúdos com os dos clientes. Fala-se da importância do processo pessoal para o psicólogo, pois acredita-se que irá minimizar os riscos de projeções na relação com o paciente. Saímos de lá com essa lei, porém nem sei se temos tanto conhecimento dos seus fundamentos.

Ultimamente penso bastante sobre isso e quero ir um pouco mais além e aprofundar nessa questão. O que noto cada vez mais na medida que me trabalho pessoalmente (Faço terapia individual em Gestalt-terapia e também em grupo com Análise Corporal da Relação, além de participar de variados workshop, oficinas e agora grupo de Constelação familiar sistêmica) e que exerço o trabalho na clínica, é o quanto minha sensibilidade e percepção ficam mais aflorada para a escuta do outro. Quando vou desvelando meus conteúdos nos espaços terapêuticos que participo fico mais disponível para perceber e (re)conhecer os entraves, bloqueios, impedimentos e potencialidades do meu cliente. Tudo que pertence ao humano é legítimo e faz parte de uma possibilidade de ser. Nada que pertence ao outro nos é estranho propriamente, todo conteúdo humano é de alguma forma compartilhado e experienciado. Engana-se aquele que afirma que há neutralidade e distanciamento do desenrolar das histórias que nossos clientes nos trazem. Na escuta dos meus clientes também há uma escuta de mim, e preciso estar atenta e consciente disso. A história dele em algum fenômeno se encontra com a minha. E quanto mais consciente estou dos meus conteúdos, mas sensível e inocente fico com seu discurso. Trago a palavra inocente, pois considero que o inocente é aquele que se deixa surpreender e após a surpresa se reconhece. Quando trabalho minhas faltas e desejos, estou também contribuindo com o trabalho do meu cliente. De alguma forma os conteúdos entre nós que nos conectam vão se desenrolando através do meu movimento pessoal e a coisa se amplia. Ás vezes, há temas que só poderão ser alcançados na terapia com o paciente quando eles já tiverem sido abarcados na minha terapia. Em resumo, meu trabalho pessoal não serve para me proteger ou me blindar dos "problemas" do cliente, e nem vice-versa, e sim para me abrir e me disponibilizar mais livremente e autenticamente naquela relação.

Hoje, compreendo a importância para nós, psicólogos, do trabalho pessoal como ferramenta de intervenção profissional. Estou formada a seis anos e nesse tempo nem sempre estive em trabalho pessoal. Porém, atualmente, não consigo desatrelar uma coisa da outra. Claro que todo processo tem seu tempo e todos os ciclos têm seu começo e seu fim, mas hoje reconheço o quanto é essencial debruçar-me sobre mim mesma para enfim ir ao encontro do outro e colaborar com o debruçar dele sobre si mesmo. Acho delicado quando vejo profissionais que trabalham, especialmente na clínica, e nunca se propuseram a um espaço de escuta terapêutica. Penso: "o que impede esse sujeito de se submeter a uma proposta que ele, geralmente, defende tanto que o outro vivencie?" Caso você trabalhe com psicologia e nunca fez psicoterapia observe o que te impede. O que você evita? 

Pessoal que trabalha com psicologia e em especial psicologia clínica, façam psicoterapia, e se possível, outras práticas terapêuticas que vocês se identifiquem também. Será fundamental para sua vida profissional. Seus clientes irão ganhar muito com isso.

domingo, 2 de junho de 2019

Eu até perdoo nossa despedida.
Mas não posso perdoar os sonhos que ficaram
e aquele velho suspiro da saudade.

sábado, 25 de maio de 2019

Há dias que sou seca.
Outros inundação.
Terreno instável.
Maleável.
Sou terra árida que nada cresce.
Sou fina chuva que tudo cria.
Em mim há desertos.
Construo oásis.

sábado, 4 de maio de 2019

Enquanto sou, vivo.
Enquanto vivo, sou.
A vida me arrasta.
Ela segue.
Tento acompanhá-la.
Ela é rápida demais.
Surpresa.
Caio.
Respiro.
Levanto.
Continuo.
porém, diferente.
Nunca a mesma, mas sempre (en)frente.

A vida é imprevisível.Que tola eu fui em pensar que podia controlá-la. Como sou ingênua em acreditar que meus planos garantem segurança. Só foi preciso um pano no chão pra me mostrar que estou errada. A vida é encadeamento. Rede de fatos e ocasiões que desembocam num fim e marcam um novo começo. Só foi preciso um pano no chão e eu cai. Abre-se enfim o mistério da queda. Nunca levantamos os mesmos. Por menor que seja ela nos marca. Ensina. Amedronta. Fortalece. Fortalece? A minha humanidade e fragilidade ficou clara no momento que cai. Agora tenho consciência que meu corpo não é de ferro, sou carne e ossos. E ossos fraturam. Ossos quebram. Sou nervos. E nervos ... Bom, nervos são sensíveis e fundamentais. Finas redes que conectam tudo e dão movimento. Gente, foi só um pano no chão. Como pode? Pode. E agora, diante da minha fragilidade, temo. Temo a vida e sua imprevisibilidade. Temo meu corpo e sua finitude vulnerável. E cá estou eu, nesse mistério que se revela e me assusta. A vida não se trata de justiça. Ela só acontece. Ela só se faz. Ela corre. Eu, tropeço em um pano no chão.  

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...