segunda-feira, 28 de maio de 2018

Zodíaco

Sou touro
Sou terra
Sou firmeza sob os pés
Sou fertilidade
A cabeça cria
Os pés sustentam
Meus braços abraçam
a construção
Minhas lágrimas limpam a ruína
As mãos carregam os sonhos

Sou touro
Eu luto
Eu rendo
Sou força
bruta fina flor
nesse corpo de mulher
E fera no coração
quente e frágil
que esfrio por ter medo do desamor.



quinta-feira, 10 de maio de 2018

Descompasso

As mentiras que finjo ser na esperança de proteger seu amor.

*

Quantas palavras são necessárias para esgotar um vazio?

*

Estou abastecida de saudade. Sinto falta das minhas incompletudes.

*

Sou retalho de lembranças que ecoam num corpo mal amado.

*

No meu luto, luto para não esquecer. Esquecer é a verdadeira morte.

*

É no fundo do seu olhar que percebo que existo e nele dignifico minha existência.

*


quarta-feira, 2 de maio de 2018

No meu tempo de escola...

Quando eu era pequena minha mãe trabalhava de segunda à sexta das 9h até as 18h. Para chegar ao serviço no horário ela tinha que sair de casa por volta das 7h40 e só chegava em casa por volta das 19h30. No sábado ela ainda trabalhava meio expediente. Sua folga era aos domingos que íamos à praia SAGRADAMENTE para que ela aproveitasse seu dia. Era uma rotina cansativa que não cessava quando ela chegava em casa, pois ainda havia os afazeres domésticos para cuidar, dois filhos para criar e um marido para zelar.

Dito isso quero confessar que minha mãe nunca me ajudou nas tarefas escolares. Ela não sentava comigo à mesa e me ensinava a lição. Minha mãe não corrigia minhas atividades e nem revisava os meus exercícios. Na verdade, as vezes ele nem cobrava sobre a realização dos mesmos. Sei que na minha época escolar a maioria dos meus amigos e amigas não tinham os pais como colaboradores da hora de fazer "as obrigações" escolares. Alguns os pais até cobravam, procuravam saber na escola sobre o desempenho do filho(a) e em casa ficavam atentos às atividades das crias, porém não sentavam junto para fazer com eles os deveres.

Hoje, como psicóloga, observo um movimento diferente por parte de muitos pais. É bastante comum ver a presença e participação ativa dos pais quanto ao suporte dado na realização das atividades escolares de seus filhos. Eles respondem juntos, revisam e até corrigem com o(a) filho(a) antes do dia de aula. As tarefas escolares, em algumas casas, deixaram de ser atividades da criança/adolescente, para virar um evento em família.

Na minha infância a escola era o meu espaço, era a minha responsabilidade e lá eu vivia uma diversidade imensa de sentimentos. No colégio comecei a construir uma vida independente dos meus pais. Ali, era o meu lugar, onde eu ensaiava meu ser e lidava com as minhas emoções sem a presença ativa dos meus pais. Era assustador e também era libertador. Claro que a escola dialoga com os pais sobre a vivência das crianças e adolescentes dentro de suas paredes, mas é IMPOSSÍVEL ter o controle total. Então, a escola é aquele lugar onde a criança/adolescente precisará tomar atitudes sem ter o suporte direto dos pais (Pense em um bagulho louco...).

Como já disse, eu fazia (ou não fazia) as minhas tarefas sozinha. Ao chegar na aula precisava lidar com variadas situações. Quando cometia erros na lição enfrentava a vergonha, a decepção e a frustração. Às vezes, precisava manejar a inveja, pois havia colegas em sala que acertavam tudo ou mais do que eu. O sentimento de fracasso e ineficiência me invadia. Respirava fundo. Não eram sentimentos bons, fáceis porém, fundamentais de serem compreendidos e manejados. Na próxima vez ficava mais atenta à tarefa e tentava acertar mais, ou desistia e recorria a outras estratégias de "efetivação das lições de casa". Enfim, era necessário aprender a conviver com aqueles sentimentos.

Havia momentos que a tarefa estava impecável. Acertava TUDO. Ai, que delícia! O sentimento de sucesso, de competência e eficácia invadiam meu ser. Era incrível. Também era fundamental aprender a manejar essa gostosura de cenário emocional. É perigoso se perder na arrogância e desejar manter esse padrão alto é estressante, inconsistente e fragilizador, pois, logo em seguida a escola me ensinava que haveria o erro. O erro era inevitável. E lá estava novamente lidando com minhas frustrações (Droga!). O sucesso e o fracasso eram meus. Só meu. Eu assumia cada escolha e cada desdobramento.

Será que hoje com a participação ativa dos pais as crianças e os adolescentes estão tendo a oportunidade de se responsabilizarem por esse universo emocional? Será que essa presença dos pais está reforçando a dependência ou estruturando a base para uma autonomia posterior? Até que ponto os(as) filhos(as) não utilizam as tarefas escolares como oportunidade para se relacionarem com seus pais, pois percebem que nesse cenário há mais facilidade? Até que ponto as crianças e os adolescentes utilizam a participação dos pais nos deveres escolares  como forma de evitarem assumir suas escolhas e sentimentos? Você, como pai e mãe, percebe que usa a hora da tarefa como forma para se aproximar de seu filho(a)? Você descreve seu filho como autônomo ou dependente e qual a sua contribuição para a manutenção dessa característica?

São tantos os desdobramentos possíveis. Não há resposta certa ou errada. Cada realidade, cada relação desenvolve seu próprio universo. Penso que vale a pena refletir.
Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista Relacional
@psicoterapiafalemais

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sobre terapia, pressa e esperança.

Escolher procurar por um psicólogo não é fácil. Iniciar uma terapia exige um processo anterior de aceitação e superação de idéias pré-concebidas. Existem diversos preconceitos com o trabalho do psicólogo, em especial, a psicoterapia/terapia. Buscar esse serviço indica a ultrapassagem dessa primeira barreira: o julgamento alheio que envolve o fazer clínico em psicologia. Quem nunca achou estranho quando alguém fala que vai à terapia? Pensamos logo em "Loucura, sofrimento e fragilidade". Nem sempre nessa ordem e nem sempre o pacote todo. Porém, esses conteúdos perpassam o nosso imaginário ao falarmos de psicoterapia.

Ok! Geralmente, devido a isso, quando o sujeito decide procurar por terapia ele está no seu limite. Ele vive o insuportável. Encontra-se transbordado, sufocado e exausto. O cliente chega com o sentimento de emergência e quer urgência, pois não aguenta mais. Ele tem pressa e nesse ponto encontramos um impasse. Na sua grande maioria as dificuldades vividas no processo terapêutico se dão pela necessidade de urgência que os clientes chegam ao consultório. A angústia está intensa e pede pressa.

Contudo, para a psicoterapia é preciso paciência. Aqui, não há pressa. Terapia exige tempo e não tem certezas. Ela maltrata os ansiosos por não ter respostas prontas e garantias. Chegar ao consultório pedindo por pressa é constatar uma limitação e se deparar com a frustração. Não é nada simples. O terapeuta que entrar na pressa do cliente perde a potencialidade da terapia e o processo empobrece. Eu cuido bastante da minha ansiedade pra que ela não atrapalhe a temporalidade do processo terapêutico. E admito, às vezes, ela me confunde. 

Psicoterapia pede tempo e espera. Eu diria esperança até. Esperança no movimento, esperança na dor e esperança na capacidade do cliente de enfrentamento. Às vezes eu penso: "Se essa pessoa aguentou até aqui, então ela tem uma força gigantesca e vai suportar o processo de espera da terapia.". Caso contrário, irá procurar por soluções mágicas, velozes, prontas, práticas, sem sofrimento e desistirá da terapia, pois não trabalhamos com esses modelos. Terapia não anestesia. Terapia revira, procura, remexe, reabre, e trata, não para se alcançar um estado de "cura" , e sim para se aprender o "o quê" e "o como" estamos nos "adoecendo". Passamos a tomar consciência dos nossos processos de bloqueios e impedimentos para, enfim, agirmos sobre eles e isso muda a forma como encaramos a nossa vida.

Adiantando um pouco as coisas, recomendo que busque terapia antes da urgência. Que você possa ir quando ainda puder tolerar. Que a procura surja quando as coisas não estiverem insuportáveis. Que a terapia possa vir no momento que ainda há serenidade. Garanto, que isso será algo que facilitará um pouco mais o trabalho. Vai por mim... Ou não. Na verdade, você que sabe. 


Foto: Thyeri Bione


Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista relacional
@psicoterapiafalemais



sábado, 20 de janeiro de 2018

Não.
Eu não aceito me poupar.
Não quero ser poupada de nada.
Se for dor que seja dor então.
Não permito que anestesiem o meu sofrer.
Eu quero o todo.
Deixem-me com minhas intensidades.
Já basta.
Sou vastidão nessa estrada sem rumo.
A minha vida quero que seja vivida com tudo que ela tiver pra me oferecer.
Chega de experimentar aos poucos.
Meus dias passam com pressa.
A vida não perde tempo.
Então, não quero me perder nela.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Olá! Sou adulta.

Eu cresci. Eu envelheci. Sou adulta. As coisas não são mais como eram na infância e, muito menos, na adolescência. Eu não sou mais quem um dia fui e ao mesmo tempo me sinto em constante transformação. Sei que ainda há muita coisa pra descobrir e se revelar. Há tanta coisa pra aprender. Surgiu em mim um sentimento de gratidão. Gratidão por hoje está me sentindo cada vez mais MINHA. Cada vez mais mulher. Tenho poder. Sou possibilidade. Tenho capacidade de gerir minha vida (Quem diria?). Gratidão por estar aqui, viva, aos 27 anos. São 27 anos. Uau!

Acompanhado da gratidão veio o medo. O medo por hoje perceber que minhas pernas, e apenas as minhas pernas, são o meu apoio. Por tomar consciência que a minha história me pertence e sou eu que a (re)escrevo. Eu, só eu. Apesar de ter tantos entres e outros, sou eu que me faço e refaço todo dia e a todo instante. Sou minha. E, é importante, que eu cuide de mim. Desejo ser bem cuidada. Gosto de ser bem cuidada. Preciso me esforçar para promover o meu bem estar. Medo por encarar a passagem do tempo e ver que estou viva, aos 27 anos. Nossa, já são 27 anos!

E o que falar dos meus amigos e amigas? Gente, quem são meus amigos hoje? Caramba! Eu olho pra eles e penso "É sério isso? Como aquela criança se transformou nisso? Que incrível". Dá pra fazer outro texto sobre isso. Quem sabe um dia...?

É, eu cresci. Envelheci. Sinto, porém, que em mim existe algo de infantil e lúdico. E isso me fortalece e me encanta. Às vezes me dá a sensação de estar em casa. De estar em mim. Fico preocupada em perder essa ingenuidade que já noto mais madura e serena. Temo que ela se torne ridícula e seja mal julgada. Fico preocupada com o reconhecimento e aprovação dos outros adultos. Eu, que inicio nesse grupo quero ser bem recebida. Quero pertencer a essa classe. É louco, né? Gente, é muito louco.

Hoje, do alto da minha varanda me dei conta que eu cresci. E que o tempo tá passando. Que coisa boa é o tempo. Que coisa má é o tempo. 

Enfim, quero apenas anunciar que sim, sou adulta. Cheguei, galera!



P.S.: Alguns dirão, "Vixe, só 27 anos?". Para esses eu digo "Respeite os meus 27 anos. Sim, 27 anos. CASSETE, É 27 ANOS! Daqui a pouco serão 28. E que assim seja até não ser mais." 

sábado, 16 de dezembro de 2017

Lançamento.

Eu estava ali.
Vivendo. Sonhando.
Recebendo diante da porta todos com um abraço.
Eu era imensidão.
Olhar no rosto de cada um e sentir em mim tamanha gratidão
me deixou inteira.
Transbordei.
A cada olhar eu recebi carinho.
Minha alma foi lavada e renovada.
Esse laços foram remontados e fortalecidos.
Chorar poesia com vocês foi incrível.
Senhor, se na vida eu puder carregar pra sempre uma lembrança
conserve em mim a sensação de ter sido querida e amada como fui no dia 10 de dezembro de 2017.
Obrigada!


O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...