domingo, 16 de agosto de 2015

Perdoe-me, mas não me console por favor.
Deixe-me sentir a dor.
Deixe-me sentir a vida.
Aqui reencontro meus sentidos.
Aqui refaço significados.
Sou descoberta.
Sou mistério.
Palavra simples.
Simplesmente palavra.
Silêncio.

Perdoe-me, mas não me console.
Porém aguarde. Acredite.
Seja presença.
Permita o tempo.
O movimento.
A costura dos retalhos.
O desembaraçar dos nós.
Deixe correr.
Acontecer.










Eu tenho pressa para ter mais paciência. Não aguento mais me perturbar com essa calmaria. Eu quero o mais que existe no que ainda não. Eu quero a possibilidade de transformar o que aí está e parece ser fim. Quero poder aproveitar tudo o que der da finitude. Ter certeza de que me manter incerta e duvidosa é o melhor. Quero poder ficar satisfeita com o vazio. Ser preenchida pela falta e encontrar nos meus desencontros as respostas para as milhares de perguntas que ainda não fiz e talvez jamais formule. Deus, como eu quero. Ah, como eu quero. A vida que me assombra e encanta que ela possa sempre ser esse espaço a frente. Que no dia que for partida que eu possa mesmo ainda havendo esperança aceitar despedir-me. E que haja nesse instante a dúvida: e se eu tiver mais um dia? E que me sobre o desejo: só mais uma poesia.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Sobre o "NÃO" e o papel que esse cumpre na infância.

Decidi pensar sobre o NÃO. Essa palavrinha que vem sendo alvo de muitas discussões no âmbito da educação e da psicologia infantil e social. Todos dizem que é necessário dizer NÃO para as crianças. Que precisamos fazê-las entender sobre os limites e o quando isso é fundamental para o seu desenvolvimento e para a construção de um convívio social mais agradável e saudável. Concordo com essas opiniões, mas quero complementar essa ideia inicial com o seguinte: É preciso respeitar também o não das crianças e saber ouvi-las nas suas negativas. 


Comentei a um tempo atrás sobre meu sobrinho de 3 anos que mora distante de mim e como são nossos reencontros. Geralmente ele só consegue entrar em relação comigo e interagir livremente no segundo dia. No início ele não conversa comigo e sempre impõe o não para a tentativa dos outros membros da família de nos colocar em contato. Procuro ter paciência e esperar que o estranhamento inicial ceda naturalmente e de modo leve. Para mim, ele não está apenas repetindo uma palavra que ouve com frequência, mas sim manifestando seu poder de afirmação de si e impondo um limite. Eu respeito inteiramente, mesmo querendo voar naquele bucho amarelo e beija-lo até secar os lábios. Mas, qual a relevância de tudo isso? As crianças geralmente ouvem muitos nãos. Quanto menores forem mais nãos escutam. E mais impressionante ainda que quando elas aprendem o não são inteiramente desrespeitadas.

Existe a famosa fase do "não" que as crianças por volta dos dois anos se inserem. Dizem não pra tudo e sem pensar duas vezes. Pensando assim, muitos pais negligenciam a importância que aceitar e respeitar o não na infância pode ter. Mas, qual o sentido do não mesmo? Quando negamos algo afirmamos nosso ser. O não é a afirmação de si. É poder. É configuração de um desejo que se afirma na negativa. Alguém que tem o poder de dizer não para as imposições externas é reconhecido como potente. A criança ao começar a dizer e CRIAR um sentido para o não vai dando forma ao seu ser. Vai ganhando reconhecimento como alguém que possui necessidades próprias em um ritmo próprio que difere dos pais. A criança diz que não quer comer e nega o alimento com todo o seu poder afirmativo de si e seu desejo. Ela também diz com todas as letras que não quer o abraço e muito menos o beijo, e que lindo é vê-la colocando esse limite sobre si, sobre seu corpo, sobre seu tempo. Os pais, na maioria das vezes, rompe essa potência afirmando que ela "não tem querer", ou então atravessando seu momento e fazendo-a abraçar e beijar sem ser de sua vontade. Digam-me, como uma criança pode aprender sobre o significado do não e a importância que esse tem para as relações sociais e formação de identidade se constantemente é desrespeitado quando pronuncia essa palavra? 

Acho engraçado que os pais exigem que a criança entenda e respeite o sentido dessa palavra quando é falada por eles, mas não entendem, e muitos nem se esforçam para isso, quando é a criança que a pronuncia. É como se eles dissessem: Você não tem direito ao não, somente nós. Ou pior ainda, essa palavra não tem valor de verdade, pode ser desrespeitada a qualquer momento. A criança compreenderá melhor os limites quando senti-los na relação com os outros e quando lhe for permitida sentir na sua vivência o que o não pode possibilitar. 

Em resumo, quero dizer que o não precisa sim ser colocado para a criança, mas não como imposição unilateral de respeito que parte do adulto para a criança, mas que seja uma possibilidade de relação. Não vamos deixar a criança fazer de tudo. Por exemplo, meu sobrinho enlouqueceu quando sua mãe quis guardar os iogurtes na geladeira, ele gritava: NÃO. É MEU. NÃO. Ela não podia deixá-los do lado de fora com ele levando a bandeja pra lá e pra cá, e nesse momento é preciso que a autoridade e consciência adulta tome conta da situação. Sem precisar de agressividade e grosseira. Sem precisar humilhar a criança e dizer que ela não tem moral pra nada, que ela não tem querer. Não é necessário. No entanto, quando meu sobrinho está brincando com a minha mãe e eu tento me aproximar e ele diz prontamente: Titia, não. Só eu e titia sol. Aqui ele pede privacidade. Quando ele me diz, não quero beijo, eu digo que tudo bem. E espero o momento que ele está aberto para isso. Se passarmos a olhar para as nossas crianças como iguais não precisaremos mais manipulá-las e muito menos invadi-las. Gosto de comparar o modo como tratamos as crianças com as relações adultas. É altamente desconfortável pensar que alguém venha beija-lo, abraça-lo ou force a alimentar-se quando você deixou bem claro que naquele momento não quer nada daquilo.
 
Se querem ver seus nãos respeitados, respeitem os nãos alheios.


Foto: Jonas Araújo - FOTOGRAFIA (https://www.facebook.com/jonasaraujofotografia?fref=ts)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

As flores não murcharam. O amor sim.


Você se foi e levou suas roupas do armário.
Carregou do banheiro a escova de dentes.
Recolheu seus livros da estante.
Até retirou do computador suas fotos (nossas fotos).
Saiu e bateu a porta deixando claro que nada mais restava de você para mim.
Então, desconsolado, sento no chão da sala.
De repente enxergo o vaso e vejo as rosas.
Aquelas que você nos deu dizendo que representavam nosso amor.
Elas estão lá, vivas, floridas, fortes e coloridas.
Pego-me pensando: Ainda há esperança para nós (para mim)?
Já que as flores vivem. Já que as flores ficaram.
Ou ela deixou apenas aquilo que não mais lhe interessava, nosso amor.


Foto: Thyeri Bione.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Estou em desajuste com as minhas certezas.
Quero a esperança que se esconde nas dúvidas.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Desafio Ph Poem Day.

Começo tardiamente a brincadeira, mas não quis perdê-la. Desafio de escrita ‪#‎phpoemday‬ ‪#‎day4‬ ‪#‎temaosilêncio‬


Se partires de mim, sai em silêncio.
Não suportaria ouvir tua despedida.
Deixa-me com o surdo de tuas palavras.
Com o silêncio eu posso criar.
Serão minhas as frases que ecoarão.
Criarei um belo espetáculo, onde tu estarás sofrível e arrependido.
Vai calado, e me deixa inventar nosso amor.


http://www.vanessachanice.com/2015/05/desafio-de-escrita-phpoemaday-iii-edicao.html

sexta-feira, 29 de maio de 2015

XVI Congresso Internacional de Gestalt-terapia: Primeiras impressões.

"Somos sociais ou antissociais?"

A minha primeira experiência com congressos de Gestalt-terapia foi no ano de 2013 no evento nacional aqui em Recife. Fiquei maravilhada com o encontro e com as repercussões que esse gerou sobre mim. Criei a ideia de que os congressos de Gestalt-terapia eram profundamente inquietantes e terapêuticos. Com esse pensamento cheguei ao XVI Congresso Internacional de Gestalt-terapia no Rio de Janeiro e fui surpreendida. 

Na noite de abertura fomos atravessados. Aos arredores da UERJ, local que estava recebendo o evento, ocorria um protesto de moradores de uma favela próxima contra a desapropriação de terras. Também havia dentro da Universidade, no prédio em frente ao nosso, um movimento dos estudantes e esses quebravam vidros e gritavam palavras de ordem. A situação estava tensa. O metrô estava fechado, na rua havia batalhão do choque e policiais, nenhum carro passava. Nós estávamos trancados em um teatro e por um bom tempo não fazíamos ideia do que acontecia lá fora. Até o momento em que fomos informados que precisaríamos evacuar a Universidade com urgência. O desespero se instaurou, pois cada um que contava sua versão. Disseram que havia morrido um chefe do tráfico e estavam protestando por isso, chegaram a dizer que se continuássemos juntos, eles (seja lá quem fosse) não entrariam atirando em nós. Entre a tentativa de manter-se calmo e o clima de pânico que surgia entre nós havia o pensamento: Como isso pode estar acontecendo? Eu paguei caro por isso aqui.

Era incerto a continuidade do evento. Saímos por uma "rota segura" e lá fora as pessoas estavam calmas e vivendo a sua rotina normalmente. Enquanto nós, que carregávamos pastinhas azuis, corríamos desesperados e duelávamos por um táxi que aceitasse nos levar para o destino desejado. Foi difícil, mas chegamos bem. 

No outro dia, fui normalmente para o congresso, e aqui começo a falar da minha experiência pessoal, mas com um sentimento de incerteza e certo incômodo. Após as apresentações da manhã fomos convidados a nos reunirmos no grande teatro para resolver questões da organização do Congresso. Lá somos informados que o evento não poderá mais ocorrer na Universidade por riscos de novas mobilizações e protestos. O reitor temia por nossa segurança e o evento terá que ser transferido para uma Universidade Particular, pois lá "não acontece dessas coisas". Teríamos algumas perdas. O congresso não iria acontecer dentro do programado.

E assim, lá estou eu, sentada naquela poltrona sem acreditar no que estava acontecendo. Sentindo-me lesada, impotente, frustrada e preocupada. Fiquei lembrando do questionamento lançado por uma palestrante: "Somos sociais ou antissociais?". Não dava para negar a realidade. Não dava para discutir sobre os conceitos de Contato, Campo e Ajustamento Criativo e negar o meio social em que vivemos. Como pensar figura e fundo e não levar em consideração a nossa experiência naquelas circunstâncias? Eu sou um ser social e faço parte de tudo isso. E tudo isso faz parte de mim. Os moradores da favela da mangueira e os estudantes da UERJ jogaram isso na minha cara. O que fazer diante disso? Por enquanto a alternativa que encontramos é mudar de lugar. Ir para longe. Afastar-nos. Vamos agora para a Universidade de Santa Úrsula (e que ela nos proteja). No entanto, penso: não é assim que sempre fazemos? Não é assim que "resolvemos"?

É, os Congressos de Gestalt-terapia são extremamente inquietantes.

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...