No corpo que sou tenho em mim uma história vivida.
Na pele que sou tenho registrado cada toque sentido e sonhado.
Nos olhos que sou guardei todos os delírios de lembranças e as imagens das palavras que me foram pintadas.
Há nos ouvidos que sou os sons, os silêncios e as pausas que ressoaram em suor, riso e choro.
Quantos abraços há em mim para trocar? Quantos passos me restam para andar?
No corpo que sou, existo! Sou presença no cheiro que transpiro e que expira a cada mover.
Sou passagem nas rugas que marcam.
Sou a cura em cada cicatriz.
Sou destruição no mastigar.
É na queda que me faço morte e no levantar ensaio o recomeço.
Renascer nos suspiros.
Embalar a dor nos soluços que escorrem.
O corpo que sou prevalece no sentir.
Sou afeto em todo gesto.
O corpo que sou insiste e persiste.
Sou corpo e nele me faço ser.
Aqui se lê sobre tudo o que interessa a quem escreve. Tudo muda constantemente, inclusive as opiniões. Aqui se encontra uma escrita livre que se impulsiona pelo desejo de expressar-se. Sinta-se a vontade para questionar e criar. No dia a dia construo minhas ideias e elas diariamente me desconstroem. Nessa costura que faço na minha rotina compartilho com vocês os retalhos e que possam, assim, remendar seus seres.
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
quinta-feira, 12 de julho de 2018
À casa da minha infância...
Desde pequena (bem pequena mesmo) morei em um apartamento num bairro pobre. Para mim, ele nem era grande, nem era pequeno, simplesmente, acomodava a mim e a minha família. Às vezes, ele parecia enorme e demarcava distâncias absurdas entre nós. Às vezes, ele parecia minúsculo e me sufocava. Vivi nele até meus 26 anos. Sinceramente, não sei quando comecei a morar nele. Acredito que foi por volta dos meus 3 ou 4 anos. O prédio era simples e ficava numa quadra (eu amava aquela quadra). Construí muitas amizades por lá. Antes de morarmos no bloco G, vivíamos no F (Foi a minha primeira mudança). Eu lembro que no auge da minha força ajudei meu irmão a carregar um colchão para a nossa nova casa, o bloco G. Foi nele que comecei a me perceber gente. Passei a infância, a adolescência e iniciei a vida adulta. Saí aos 26 anos. Sem olhar pra trás. Sem saudades e sem remorsos. Apenas mudei. Não sinto falta da minha casa (MINHA casa ...).
Porém, acontece um fenômeno engraçado. Sempre que sonho com casa retorno para a casa da minha infância, meu primeiro lar. Não é a casa da adultez que habito. Quando sonho é a casa da minha infância que me faz morada. Acho isso incrível! Independente do conteúdo do sonho, quando tem casa é pra lá que eu vou. Por exemplo, essa noite sonhei que estava em Serra Talhada, na casa do meu irmão, eu estava lá em Serra, só que o cenário era a querida Quadra 49 e o bloco G. Era a casa da minha infância. Aquela que foi base para as minhas descobertas. Nela vivi tantos sentimentos e aprendi sobre espaço quando me vi crescer e o apartamento diminuir (ao ponto de precisar me mudar). São 2 anos fora de lá. Às vezes, me parece 20 anos.
Diariamente não me faz falta e nem me aquece o coração pensar naquelas paredes laranjas (Isso é lá cor de se pintar casa, gente?) ou até de sentar na janela da sala e ficar pensando em nada e quase tudo. Não me abate e nem me invade as recordações daquelas escadas e os papos jogados fora por lá. Aqueles dois banquinhos debaixo do prédio já acolheram tantos abraços, risadas e lágrimas. As implicâncias do síndico com nós, crianças sedentas para brincar e correr por aquelas garagens. Aquele "quadrado" onde aprendi a namorar. A caixa d'água foi a primeira montanha que escalei. Ser a porta voz de mainha e gritar aos quatro ventos pelo meu irmão que, de repente, aparecia por detrás do prédio J ou vindo da direção do bloco D, era sentir-me poderosa e aliviada, pois eu tinha conseguido encontrá-lo (Ele vinha PUTO!). Não me faz estremecer o coração lembrar dos assovios convidativos dos amigos (que eu ouvia a quilômetros de distância) e de brincar no pequeno (quase minúsculo) terraço de casa, pois estava de castigo e não podia descer. Aprendi a modular minha força e a ser ágil, pois a bola não podia cair na pista. Beber e esconder as bebidas no nossos cantinhos secretos.
Ai! Eu não sinto falta de nada disso. Está tudo muito bem guardado em mim e não me falta, simplesmente me preenche. Não é falta. É presença. Quando falo é um gosto doce que sinto. Durante o dia, vivendo, correndo, caminhando, cuidando da vida, nem me recordo. Só que, quando chega a noite, e sonho com casa, é pra lá que eu vou. É lá que habito. É lá que sou lar. A casa da minha infância é a base dos meus sonhos.
Desassossego
Minha vida segue em linhas que não compreendo.
Não compreendo a mim nas linhas que a vida traça.
Aprendi que não se pode vacilar
e a vida me mostra que não há como permanecer sã a todo custo.
O custo que a estabilidade me cobra é muito alto.
Fui ensinada a temer
e temo o que ainda não é.
Nem só de tolices vive o homem.
Sou mistura de tudo o que foi, do que está e do que será, além do que jamais ficou.
Meus sonhos me inundam e mostram a falta por detrás da esperança.
Caminho para a busca.
A busca de cessar a procura.
A procura de nunca ser fim.
Não compreendo a mim nas linhas que a vida traça.
Aprendi que não se pode vacilar
e a vida me mostra que não há como permanecer sã a todo custo.
O custo que a estabilidade me cobra é muito alto.
Fui ensinada a temer
e temo o que ainda não é.
Nem só de tolices vive o homem.
Sou mistura de tudo o que foi, do que está e do que será, além do que jamais ficou.
Meus sonhos me inundam e mostram a falta por detrás da esperança.
Caminho para a busca.
A busca de cessar a procura.
A procura de nunca ser fim.
segunda-feira, 28 de maio de 2018
Zodíaco
Sou touro
Sou terra
Sou firmeza sob os pés
Sou fertilidade
A cabeça cria
Os pés sustentam
Meus braços abraçam
a construção
Minhas lágrimas limpam a ruína
As mãos carregam os sonhos
Sou touro
Eu luto
Eu rendo
Sou força
bruta fina flor
nesse corpo de mulher
E fera no coração
quente e frágil
que esfrio por ter medo do desamor.
Sou terra
Sou firmeza sob os pés
Sou fertilidade
A cabeça cria
Os pés sustentam
Meus braços abraçam
a construção
Minhas lágrimas limpam a ruína
As mãos carregam os sonhos
Sou touro
Eu luto
Eu rendo
Sou força
bruta fina flor
nesse corpo de mulher
E fera no coração
quente e frágil
que esfrio por ter medo do desamor.
quinta-feira, 10 de maio de 2018
Descompasso
As mentiras que finjo ser na esperança de proteger seu amor.
*
Quantas palavras são necessárias para esgotar um vazio?
*
Estou abastecida de saudade. Sinto falta das minhas incompletudes.
*
Sou retalho de lembranças que ecoam num corpo mal amado.
*
No meu luto, luto para não esquecer. Esquecer é a verdadeira morte.
*
É no fundo do seu olhar que percebo que existo e nele dignifico minha existência.
*
*
Quantas palavras são necessárias para esgotar um vazio?
*
Estou abastecida de saudade. Sinto falta das minhas incompletudes.
*
Sou retalho de lembranças que ecoam num corpo mal amado.
*
No meu luto, luto para não esquecer. Esquecer é a verdadeira morte.
*
É no fundo do seu olhar que percebo que existo e nele dignifico minha existência.
*
quarta-feira, 2 de maio de 2018
No meu tempo de escola...
Quando eu era pequena minha mãe trabalhava de segunda à sexta das 9h até as 18h. Para chegar ao serviço no horário ela tinha que sair de casa por volta das 7h40 e só chegava em casa por volta das 19h30. No sábado ela ainda trabalhava meio expediente. Sua folga era aos domingos que íamos à praia SAGRADAMENTE para que ela aproveitasse seu dia. Era uma rotina cansativa que não cessava quando ela chegava em casa, pois ainda havia os afazeres domésticos para cuidar, dois filhos para criar e um marido para zelar.
Dito isso quero confessar que minha mãe nunca me ajudou nas tarefas escolares. Ela não sentava comigo à mesa e me ensinava a lição. Minha mãe não corrigia minhas atividades e nem revisava os meus exercícios. Na verdade, as vezes ele nem cobrava sobre a realização dos mesmos. Sei que na minha época escolar a maioria dos meus amigos e amigas não tinham os pais como colaboradores da hora de fazer "as obrigações" escolares. Alguns os pais até cobravam, procuravam saber na escola sobre o desempenho do filho(a) e em casa ficavam atentos às atividades das crias, porém não sentavam junto para fazer com eles os deveres.
Hoje, como psicóloga, observo um movimento diferente por parte de muitos pais. É bastante comum ver a presença e participação ativa dos pais quanto ao suporte dado na realização das atividades escolares de seus filhos. Eles respondem juntos, revisam e até corrigem com o(a) filho(a) antes do dia de aula. As tarefas escolares, em algumas casas, deixaram de ser atividades da criança/adolescente, para virar um evento em família.
Na minha infância a escola era o meu espaço, era a minha responsabilidade e lá eu vivia uma diversidade imensa de sentimentos. No colégio comecei a construir uma vida independente dos meus pais. Ali, era o meu lugar, onde eu ensaiava meu ser e lidava com as minhas emoções sem a presença ativa dos meus pais. Era assustador e também era libertador. Claro que a escola dialoga com os pais sobre a vivência das crianças e adolescentes dentro de suas paredes, mas é IMPOSSÍVEL ter o controle total. Então, a escola é aquele lugar onde a criança/adolescente precisará tomar atitudes sem ter o suporte direto dos pais (Pense em um bagulho louco...).
Como já disse, eu fazia (ou não fazia) as minhas tarefas sozinha. Ao chegar na aula precisava lidar com variadas situações. Quando cometia erros na lição enfrentava a vergonha, a decepção e a frustração. Às vezes, precisava manejar a inveja, pois havia colegas em sala que acertavam tudo ou mais do que eu. O sentimento de fracasso e ineficiência me invadia. Respirava fundo. Não eram sentimentos bons, fáceis porém, fundamentais de serem compreendidos e manejados. Na próxima vez ficava mais atenta à tarefa e tentava acertar mais, ou desistia e recorria a outras estratégias de "efetivação das lições de casa". Enfim, era necessário aprender a conviver com aqueles sentimentos.
Havia momentos que a tarefa estava impecável. Acertava TUDO. Ai, que delícia! O sentimento de sucesso, de competência e eficácia invadiam meu ser. Era incrível. Também era fundamental aprender a manejar essa gostosura de cenário emocional. É perigoso se perder na arrogância e desejar manter esse padrão alto é estressante, inconsistente e fragilizador, pois, logo em seguida a escola me ensinava que haveria o erro. O erro era inevitável. E lá estava novamente lidando com minhas frustrações (Droga!). O sucesso e o fracasso eram meus. Só meu. Eu assumia cada escolha e cada desdobramento.
Será que hoje com a participação ativa dos pais as crianças e os adolescentes estão tendo a oportunidade de se responsabilizarem por esse universo emocional? Será que essa presença dos pais está reforçando a dependência ou estruturando a base para uma autonomia posterior? Até que ponto os(as) filhos(as) não utilizam as tarefas escolares como oportunidade para se relacionarem com seus pais, pois percebem que nesse cenário há mais facilidade? Até que ponto as crianças e os adolescentes utilizam a participação dos pais nos deveres escolares como forma de evitarem assumir suas escolhas e sentimentos? Você, como pai e mãe, percebe que usa a hora da tarefa como forma para se aproximar de seu filho(a)? Você descreve seu filho como autônomo ou dependente e qual a sua contribuição para a manutenção dessa característica?
São tantos os desdobramentos possíveis. Não há resposta certa ou errada. Cada realidade, cada relação desenvolve seu próprio universo. Penso que vale a pena refletir.
Andreza Crispim
Psicóloga CRP 02/17314
Psicomotricista Relacional
@psicoterapiafalemais
@psicoterapiafalemais
Assinar:
Postagens (Atom)
O céu que arde na terra.
Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...
-
Há algo de mágico em despojar-se no chão. Eu diria até sagrado. Você já tentou? Aqui embaixo eu faço as pazes com a minha insignificância e...
-
Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...
-
Meus cabelos caem. Os fios espalham-se pela casa. Para onde olho existe um pedaço de mim caído. Parece que me desfaço a cada fio. Parece que...