quarta-feira, 4 de março de 2015

Quando brinco, eu SOU.


Alguns dias atrás assisti ao documentário Tarja Branca - A revolução que faltava. Esse fala sobre o ato de brincar e a sua importância para a natureza humana. Fui inquietada em diversos momentos e sobre variadas questões, mas principalmente no que se diz a respeito do brincar. Com o documentário comecei a questionar um pouco mais esse aspecto do humano. Noto que costumeiramente estamos interligando o brincar à uma atividade, ou seja, brincar implica em exercer uma atividade lúdica e essa leva o nome de brincadeira ou jogo.

No entanto, penso que muito mais do quê o exercício de uma atividade, o brincar é um estado de espírito que se caracteriza pela espontaneidade, inteireza e expressão genuína do ser. O sujeito que se coloca a disposição para experimentar e ser criativo, estar brincando. Em outras palavras, o simples exercício de uma atividade lúdica não se caracteriza como brincar, mas sim quando eu me encontro em um estado de abertura para ser livremente espontâneo, inteiro nas minhas relações e com respeito às minhas manifestações pessoais. 

Brincar é estar em contato consigo mesmo e aberto para receber o outro como ele é. É estar disponível. No campo do trabalho o brincar é mal visto, pois é reconhecido como bagunça e sem seriedade. Porém, aquele que brinca no seu trabalho desempenha suas tarefas com mais criatividade e prazer. Ele não para de exercer suas funções predeterminadas, mas as encara de um modo diferente. Brincar é abrir-se para o novo, na verdade, brincar é perceber o novo na rotina desgastada do dia-a-dia. Brincar é inovar-se. E como está faltando dentro do ambiente de trabalho essa leveza de poder se renovar na rotina e de reescrever novos sentidos para as atividades. Faltam pessoas criativas, inovadoras, espontâneas e encantadoras no campo do trabalho. Sim, o encantamento, brincar é encantar-se e encantar. Alguém que brinca encanta o outro para animar-se também. Convoca o outro a se colocar de modo mais apaixonado nas suas atividades. 

Ambientes que procuram extinguir de seu meio o brincar, são lugares que não dão espaço para o ser. Ambientes assim minam a subjetividade do homem. Estão mecanizando os sujeitos, robotizando-os, pois brincar é ser a si mesmo. O trabalho e a escola são ambientes que na atualidade veem mortificando o ser.


Brincar é fundamental, pois coloca o sujeito em contato consigo mesmo. Na brincadeira não há tempo para ensaios. O sentir, o pensar e o agir estão completamente interligados. Só há o agora. A criança entende isso, e mais uma vez digo que vai além do exercício de um jogo, é um modo de existir. Pense, alguém que não brinca tem um modo de vida engessado, endurecido, está preocupado em controlar as situações e não se arrisca, não se entrega, não se experimenta, não conhece as possibilidades de seu potencial. Brincar é liberdade. 

Quando somos brincantes estamos abertos para descobertas. Experimentamos, nos arriscamos, cometemos erros, reaprendemos constantemente, duvidamos e criamos. Quando somos brincantes estamos abertos para a vida. Brincar é vida.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ressignificando os sentimentos: (Re)leitura sobre A IRA (Raiva).

O sentimento de ira ou raiva faz parte daqueles que são renegados pela nossa cultura. Sentir raiva é "feio", é apontado como sinal de descontrole e, as vezes, compreendido como falta de capacidade para lidar com as situações desagradáveis. Além disso, tal sentimento está ligado a agressividade e esta não é bem vista no meio social. 

Como já tratei anteriormente nossos sentimentos nos ajudam a compreender o que se passa em nós. "Os sentimentos são a maneira como nos percebemos. São a nossa reação ao mundo que nos circunda." (VISCOTT, David. 1982, p.17). Através da percepção do que sentimos compreendemos o modo como estamos nos colocando no mundo e os efeitos que o mesmo tem sobre nós. "Aquilo que sentimos a respeito de qualquer coisa reflete a nossa história e desenvolvimento, nossas influências passadas, nossa agitação presente e nosso potencial futuro." (VISCOTT, David. 1982, p.17). Para termos uma real consciência de quem somos e de como estamos levando a nossa vida precisamos ter acesso ao que sentimos e vivenciar os afetos aceitando-os e não os negligenciando. 

Nossa cultura valoriza o pensamento, o raciocínio e afasta do seu cotidiano os sentimentos. Esses são percebidos como falhos e que não correspondem à um estilo de vida civilizado. O pensamento, atualmente, surge para calar a emoção. As consequências desse posicionamento são pessoas que não percebem sobre si, não se conhecem e que negam quem são para tentar ser aquilo que deveriam ser. Estamos vivemos em uma sociedade onde os indivíduos deixam de seguir suas próprias motivações para se orientar por modelos predeterminados. Acredito que uma das formas de reencontrar o seu próprio desejo e de descobrir seu verdadeiro eu é aceitar e compreender seus sentimentos. Por isso, pretendo falar da raiva como algo inevitável e que faz parte da natureza humana para reintegrá-lo a personalidade do sujeito. 

Foto:  Tommy Ingberg

Refletindo sobre a ira e o que ela representa lembro da falta e como ela assombra a nós, seres humanos. Nos depararmos com a frustração é doloroso e sentimentos de cunho negativos nascem daí. A raiva surge quando enfrentamos a falta, a falta que o limite nos obriga a lidar. A raiva nos aponta os limites e as nossas limitações. Quando nossos desejos não podem ser satisfeitos sentimos raiva. A ira revela o conflito entre aquilo que queremos e aquilo que podemos realizar. 

Nascemos com o desejo de dominar o mundo. Somos livres para desejarmos, contudo o mundo nos responde que não pode e não quer ser dominado. Nesses instante percebemos que nem tudo é e será como queremos. O limite é colocado a nossa frente e necessitaremos lidar com ele. No entanto, o que a raiva revela para o sujeito quando se depara com o limite? Ele se reencontra com seu próprio desejo. Ao sentir raiva ele reafirma sua vontade, apesar de não poder ou não estar conseguindo satisfazê-la no momento. A ira é uma afirmação de si mesmo. Nos faz lembrar que temos desejos e queremos ser satisfeitos. Não sentir raiva é não ter desejo. É não querer com afinco. É não estar motivado e interessado em algo. Raiva é um apoderar-se de suas vontades e valorização de si mesmo. Com o tempo aprendemos a driblar os obstáculos que surgem diante de nós, ou contornamos certas situações e até mesmo aceitamos, ultrapassamos e seguimos em frente. A raiva nos possibilita encontrar outras saídas para a realização. Pense, como será uma pessoa que não sente raiva? Ela não se inquieta, não se irrita e emputece com nada? Que triste é essa pessoa. A raiva nos conecta com o que há de mais valioso em nosso ser, são nossas necessidades, nossos desejos e vontades.

Agora, pensemos um pouco mais, porque a nossa educação moral pretende extinguir de nós esse sentimento? Bom, penso que é exatamente pelo desejo. Somos educados para não desejarmos por nós mesmos, mas para realizarmos desejos e modelos de estilos de vida predeterminados. Nossa cultura não aceita que os indivíduos se afirmem enquanto livres e desejantes. Livres e independentes da vontade dos pais e desejantes para além do que nos oferece a cultura. Ela também não sabe como lidar com os limites. O tema do limite na contemporaneidade é algo que inquieta vários estudiosos, pois estamos enfrentando sujeitos perdidos que atravessam a si e ao outro, sem noção de respeito pelo próximo e a si próprio. Como diria Perls, "O primeiro e último problema do indivíduo é integrar-se internamente e ainda assim, ser aceito pela sociedade." Encontrar o equilíbrio entre o seu desejo e as exigências e limites da sociedade é o grande lema do indivíduo civilizado.

Quanto a agressividade que advêm desse sentimento é algo que precisa ser respeitado e compreendido mais amplamente. Mais uma vez repito que não é o sentimento o problema, mas o modo como reagimos a ele. Precisamos receber uma educação que englobe a afetividade e nos ensine a lidar com os afetos de modo responsável. Agressividade não é destrutiva, ela é energia, é força propulsora, só precisa ser bem utilizada e canalizada. "Por meio desse domínio da agressividade tem início a adaptação ao outro. É 'fazer de conta', é 'não fazer mal', é encontrar os limites da tolerância do outro... e também fazê-lo conhecer os próprios limites." (LAPIERRE, André; AUCOUTURIER, Bernad. 2004, p.81)

Outra reflexão que pode ser feita é que a ira mostra que há a necessidade de um ajuste. Que é preciso haver um entendimento entre duas partes ou até mais. Ela nos coloca em contato com a necessidade do outro também. Quando estamos com raiva estamos diante de um impasse que precisa ser resolvido, ou se não for possível resolução, é preciso haver conformidade. A raiva, ao invés de te afastar do outro, como muitos pensam, te aproxima, pois será necessário resolver alguma coisa e a presença do outro é inevitável, as vezes. E assim, termino com Lapierre e Aucouturier (2004), "(...) o entendimento deverá ser um prazer e não uma obrigação. É o prazer de ser aceito, ao mesmo tempo, como sujeito desejante e objeto de desejo do outro; é uma tentativa de harmonização dos desejos." (p.85).
Foto: Jonas Araújo

Referências: 

*VISCOTT, David. A linguagem dos sentimentos. São Paulo: Summus, 1982.

*LAPIERRE, André; AUCOUTURIER, Bernard. A simbologia do movimento: Psicomotricidade e educação. 3º ed. Curitiba - PR: Filosofart Editora, 2014.




sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ressignificando os sentimentos: (Re)leitura sobre A INVEJA.

Comecei a pensar sobre a inveja, sentimento tão renegado e que causa grande desconforto no indivíduo e na sociedade. Sentir inveja é compreendido como ato de fraqueza e vergonha. Acredito que nossos sentimentos são fundamentais para a compreensão de nós mesmos e para nos orientarmos ao longo da vida. Assim, fiquei me questionando sobre o significado da inveja na condição humana, pois como já disse várias vezes, todo sentimento é legítimo e deve ser respeitado e vivenciado. 

Então, de repente, algo me veio a cabeça: a inveja aponta para o desejo. Ao sentirmos inveja fica claro para nós algo que desejamos. O querer é despertado e a partir daí a falta se faz presente, pois onde há desejo, há falta. Através do desejo manifestado pelo surgimento da inveja constatamos o quanto somos incompletos. Percebemos que existe em nós uma insatisfação, um incomodo que implora para ser encerrado. Desse aspecto surge o caráter negativo do sentimento de inveja, já que notar-se a si mesmo como um indivíduo incompleto e faltoso não é nada fácil para o ser humano. 


Contudo, a inveja além de causar um desconforto para quem a sente, também perturba o outro. Será que a  inveja do outro aponta para minhas faltas e insatisfações? Será que ao ver o desejo do outro sou tocado também no meu desejo, e com isso, impulsionado à busca, ao movimento? Fico pensando se há algo mais perturbador para o homem do que se perceber incompleto, faltoso e insatisfeito com o que possui? Nossa sociedade busca incessantemente por um estado de felicidade incondicional. Estamos à procura da satisfação ininterrupta. O homem contemporâneo não quer ser frustrado, não quer vivenciar a falta e nega as suas imperfeições e as do outro. Renegar essa condição existencial de incompletude humana é afastar-se do que há de mais precioso para o sujeito, o desejo.
 
 
O invejoso transpira insatisfação, falta e frustração, mas também inspira vontade, desejo e até mesmo sonhos. Não existe problema nenhum em sentir inveja, o que há de problemático é o modo como as pessoas reagem a esse sentimento. É preciso descriminalizá-la. A inveja é humilde, pois coloca o homem diante de suas falhas e de suas carências. E não há nada de errado com isso. É preciso distinguir sentimentos de ações frente a esses sentimentos. Nós reagimos infantilmente quando nos encaramos invejosos, pois não sabemos lidar com a falta. Nossa cultura não nos prepara para lidarmos com a frustração diante de um desejo não satisfeito e agimos como crianças inconsequentes.




Precisamos a aprender a aceitar e respeitar nossos sentimentos, questioná-los e vivê-los para compreender o que eles querem nos mostrar. Nosso ser tem uma tendência natural a tentar se manter saudável e equilibrado, nós prejudicamos esse processo quando não damos a devida atenção e o negligenciamos. O sentimento é genuíno e ocorre fora do nosso controle, ou seja, é uma manifestação espontânea e imensamente verdadeira. Então, proponho olharmos com mais respeito e consideração para a inveja e outros afetos rejeitados pela moral e cultura, pois como diz Alice Miller (2011), "Se, um dia, aprendemos a viver com os sentimentos e a não os combater, já não vemos as manifestações de nosso corpo como uma ameaça, mas como uma referência a nossa história" (p.109).

Bibliografia:
- MILLER, Alice. A revolta do corpo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014



Não há nada em mim que não tenha virado palavra.
O que não escrevo se insere no discurso em forma de lágrima.









Foto: Cayo César.

domingo, 7 de dezembro de 2014

(Má)rinheiro.



Fiz do teu riso o meu farol.
Navegar nos mares das tuas emoções é exaustivo.
São águas instáveis e que jamais conseguirei domá-las.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014



Meu medo não é de nunca conseguir realizar meus sonhos, pelo contrário.

Temo que ao realizá-los possa da satisfação advir o vazio e que daí me questione: E AGORA?.








Foto: Vladimir Kush

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...