terça-feira, 13 de novembro de 2012

Até logo.

Sinto muito, mas decidi te colocar em um cantinho escuro na minha mente. Um lugar afastado onde você não possa ser vista. Onde não possa conversar nem trocar ideias. Não possa ser ouvida. Sinto muito, mas é preciso. Todos dizem que é necessário continuar e resolvi acreditar neles. E nesse momento essa é solução que encontro. Fujo de tudo que possa te lembrar. Tenho corrido bastante esses dias. Sinto muito, mas preciso desligar as luzes do quarto mais uma vez. Fique bem por ai. Qualquer coisa tem vela e fósforo na cômoda.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A cada folha uma vida.

Ray Bradbury na introdução da versão ilustrada de Fahrenheit 451 por Tim Hamilton, propõe um exercício. Sugere que os leitores pensem no nome de um livro que gostaria que ficasse protegido dos censores ou "bombeiros", e que fosse dito a razão pela qual este livro deveria ser salvo e levado a posterioridade. Não sei se seria capaz de escolher apenas um livro, pois quando olho para a minha estante tem pelo menos quatro que não poderia abandoná-los ao fogo. Cada um deles tem um significado diferente para mim. Cada um deles representa um pedaço de mim, são partes da minha história, recortes de minha personalidade. Estes livros são: Os famosos e os duendes da morte, Como me tornei estúpido, Cartas a um jovem poeta e Niels Lyhne. 

Os dois últimos são recentes e Niels Lyhne ainda estou lendo, no entanto já me transfomou. Cartas a um jovem poeta foi lido a pouco tempo em um momento de grande furor emocional e admito que ele acalmou tempestades e gerou algumas ventanias. Muitas ideias, muitos questionamentos e sentimentos foram ativados em mim através do contato com ambas obras e nas circunstâncias que me encontro, eles vêm sendo remédios valiosos. 

Falando um pouco sobre os dois tenho que dizer que Niels Lyhne me espanta e encanta a cada página. As três primeiras linhas do livro me chocaram e fizeram com que soltasse um belo palavrão em sala de aula sem o menor decoro. Fala que "Há homens - (...) que vivem como se viver fosse a coisa mais natural do mundo". E me pergunto: Não é? Será que viver de fato não é algo natural? Talvez o seja e o que o torna artificial sejam os jogos sociais, as exigências culturais, o dia-a-dia, as obrigações, os deveres e direitos, e todos os aspectos que parecem retirar de nossas mãos a capacidade de viver a própria vida como acreditamos ser possível. 

Porém, penso que talvez viver não seja natural. Não é um processo que se dar por si só. É algo que sempre tivemos que conquistar, que lutar por. Temos que rotineiramente batalharmos para manter nosso corpo em condição de atividade. Sempre fomos guerreiros em busca de mais um dia, de mais um tempo. A vida não é natural. É uma conquista diária. Árdua. Que caminha para o desgate de se própria. Não, a vida não é natural. A morte o é. Será que é assim?

Quem nunca se remoeu com a sensação de estar presenciando o passar dos anos sem estar vivendo? Quem nunca pensou que a sua vida estava sendo ditada por outro alguém? Que era um mero passageiro na sua própria história? Quem? Ninguém? Não, não é possível. Existem pessoas que passaram e passam por isso, mas tem aquelas que jamais experimentaram desse ardor. Sorte delas. Ou talvez não? Não sei bem. 

A leitura de Niels Lyhne se dá da seguinte maneira (assim a vejo): Lê-se sobre o cotidiano. A rotina do dia. E de repente algo de extraordinário acontece. No meu caso, paro um pouco, respiro, releio a parte que me abateu, penso sobre tudo e quase nada e continuo a leitura. Algo foi mudado, mas permanece um sentimento de calma e marasmo até outro golpe e assim prossegui o texto. Jacobsen, o autor, fala de variadas questões da existência. Seu discurso é sútil, no entanto de uma crueza arrebatadora. Descreve as amarguras da vida docemente e, ao mesmo tempo, nos revela as sombras que se escondem na escuridão da alma e os clarões que a torna mais leve. Somos levados a perceber as inconstâncias da vida. As ilusões, as fantasias que habitam nosso ser e nos tornam estranhos para nós mesmos. 

Tomando como ponto de partida a maneira que se dá a leitura do livro, acredito que assim seja o curso dos nossos dias. Submetidos a um roteiro e repentinamente somos surpreendidos por algo que nos escapa, que nos invade. E o quanto buscamos artimanhas para nos proteger desses descontroles, dessas fugas do roteiro. 

As minúcias de nossa fé tão frágil, tão humana. As delicadezas das relações, seus não-ditos, seus enganos. Os afetos tão instáveis, tão ferozes. Os amores na sua forma pura, ou seja, imperfeita, insensível e que perde forças diante do conhecimento e da conquista. A capacidade de imaginar, a criatividade, a infância sem embelezamentos românticos. O quanto a incerteza nos é amiga e a certeza é fim demais para nos dar esperanças. Esse eterno fluir dos acontecimentos que não nos permite experimentar a segurança, a calmaria da estabilidade. É ele que nos provoca para seguirmos adiante, mas também nos devora. E como disse o lunático na ponte no filme Walking Life "Mas os paradoxos incomodam-me, e posso aprender a amar e a fazer amor com eles".

São tantas coisas, tantas coisas suscitadas nestas páginas. E as lembranças? Ah! As lembranças são a melhor parte, pois cada parágrafo me leva ao encontro de alguém. Alguém que já se foi. Leva-me ao encontro de mim mesma em um tempo que não sou mais. É um mundo. Ainda não cheguei ao final do livro e parece que jamais chegarei. Não poderei encerrar tal obra. Ela é grande demais, como disse Creder ao passar por mim pelo corredor da faculdade: Ela está muito a cima ...

"Viva nesses livros um momento, aprenda neles o que lhe parecer digno de ser aprendido, mas, antes de tudo, ame-os. Esse amor ser-lhe-á retribuído milhares de vezes e, como quer que se torne a sua vida, ele passará a fazer parte, estou certo, do tecido de seu ser, como uma das fibras mais importantes, no meio das suas experiências, desilusões e alegrias" (RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta).

sábado, 29 de setembro de 2012

A fotografia.

Encontrei tua foto jogada ao chão.
Percebi tua foto esquecida ao chão.
Não sei como foi parar ali.
Não sei como caiu.
Só sei que vi tua foto jogada ao chão.
Ela estava guardada.
Tão bem guardada que não se via.
Só a vi no dia em que a ganhei.
Fazia sete dias da perda.
Ela ficou guardada.
Escondida de mim.
Segura de mim
E de repente,
vejo tua foto jogada ao chão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Teus quereres.

O que queres de mim? 
O que procuras em mim?
Sinto te dizer que não sou única.
Não sou uma.
Em mim há várias.
Em mim habita o mundo.
Sou tanto.
E é tanto que não me cabe.
Transbordo em fragmentos de um todo.
Todo é o que me compõe. 
Sou vazio também.
Existe muito em mim que não sei.
E em ti descubro muito de mim.
Não posso te dar apenas teus quereres,
pois sou inteira. 
Sou a vida
e a vida é incerteza, é multiplicidade.
Tenho riso
Mas há lágrimas nos cantos dos olhos.
Tenho paz
Porém as vezes faço guerra.
Eu abraço e deixo cair.
Beijo e também viro o rosto.
Não sou fácil.
E nem tão difícil assim.
Veja, estou sendo o que posso.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Teu olhar

Há tanta vida em seu olhar. Por eles consigo enxergar toda a sua história. Eles me mostram que já viram e imaginaram muitas coisas.

Ao longo da vida nossos olhos são preenchidos por tudo aquilo que experienciamos. Quanto mais vividos, mas repletos de luz são os olhos. Contudo, essa vida que invade a pálbebra e se afunda no globo ocular não é medida pela quantidade do tempo transcorrido. Não, de forma alguma. Basta olhar nos olhos de sujeitos idosos e verá que alguns ainda estão vazios. Não é dessa forma que se dá o preenchimento de nossos olhares. A vida que nos inunda não é medida por lógica alguma existente. Ela é grande, tão grande que não se percebe com facilidade. Se dá de tal maneira simples e pequena que escapa aos nossos dedos. Não a captamos de maneira alguma. Ela nos irrompe. É uma vida que se encanta em não ser vida falada. Essas vidas que discursam por aí não entra por nossos olhos. Não enchem nossos corpos. É uma vida que está fora daquilo que falam da vida. É aquele pedaço que não explicamos. Notável no inotável. É ar, água, mato e fogo. Um nó. Não, não um nó, um laço facilmente desatável. Frágil e também firme, tão firme que não pode ser destruída. Como pode caber tantas contradições em sua explanação? 

A vida que vejo em teus olhos conta a história que para ti não fica clara. Aquele recorte da tua história que não houve palavras. Não ouve. Nos teus olhos eu vejo a vida, a tua vida invivida. Sim, vejo que a tens caminhado e que estais a construir algo. Tu sonhas. Percebo isso. Sonhos modeláveis. Sonhos facéis. É mais simples. É mais fácil. Tudo bem, não há indignidade em sonhar sonhos simples.

Ah, teus olhos, que bela magia. Consigo acreditar que o amanhã nascerá com sol e leves pancadas de chuvas para molhar nossos pés. Sim, dá pra ver. Sim, posso ver. Nos teus olhos meu reflexo é uma possibilidade. Pintar-me-ei na tua retina e serei por um tempo parte dessa vida, da tua vida. Quem sabe do tempo? Que seja agora. Que seja hoje. Por enquanto, que seja.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cânticos

VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

"Este cântico foi recitado para mim por meu grande e lindo amigo Cayo César. Foi incrível e muito importante ter escutado tais palavras vindo dele que é beeem especial para mim." (:

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

31 dias.

E hoje faz um mês. Um mês de estranheza inexplicável. A saudade ainda está aqui, não sei se irá embora, porém as coisas estão diferentes. Estão mais calmas. Estão serenas. Sei que não será sempre assim. Haverão momentos que o aperto se fará forte e vai ser difícil. Vai ser mais difícil. No entanto, hoje, estou calma. Tudo parece esquisito. Ainda não me acostumei com a ideia, mas já convivo com ela. Começo a me esforçar para voltar ao ritmo normal de minhas atividades rotineiras. Penso em novas formas de lidar com o que vem acontecendo dentro de mim e até que estou bem. Voltei a ler e esta sendo incrível. Lembro de você a cada página e não me dói, pelo contrário, alívia. Você está em mim, sempre estará. É, algumas coisas ficam mais bonitas quando viram lembranças, porém isso não quer dizer que elas eram feias antes. Apenas ganharam a roupagem da saudade que tende a engrandecer as memórias com o passar do tempo. Então, imagina só o quanto deve estar grandes e bonitas as recordações que guardo de ti?

Hoje, e espero que isso dure por mais tempo, não reclamarei de ter reclamações. Não me frustarei com as minhas frustações e nem ficarei triste por ter tristezas. Viverei tudo da maneira que aguentar viver. Vivenciarei cada emoção com o que ela tiver a me oferecer. É, abraçarei minhas dores e aguardarei ativamente que elas me transformem. E saiba que foi lindo ter te conhecido. Foi mágica a nossa amizade. A guardarei em mim até onde puder. Agora, seguirei e lidarei com o que vier pela frente. Obrigada, muito obrigada por ter sido minha amiga. Melhor, por ter sido minha cobaia.

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...