quinta-feira, 3 de dezembro de 2015


É bastante comum antes das festas de natal e ano novo algumas pessoas começarem a se sentir tristes e angustiadas. Chamam esse evento de depressão de fim de ano. O que será que ocorre nessa época do ano que sensibiliza e mobiliza tantas pessoas? Sugiro alguns pontos:

1. O final de ano remete à uma avaliação de como percorremos e utilizamos nosso tempo. Somos levados a olhar para trás e refletir sobre o caminho traçado. Às vezes notamos o quando estamos perdidos e o quanto estamos afastados de um modelo de vida que satisfaça nossas expectativas. Tornámo-nos conscientes das nossas falhas e das saudades que nos acompanham durante todo dia e que é amortecida pelo corre corre da rotina. No natal e no ano novo há um apelo emocional que nos convoca a entrar em contato com nossos sentimentos e memórias.

2. Existe a sensação que o ciclo da existência se renova no final e começo de cada ano, mas no fundo, nós sabemos que a vida está apenas seguindo. Essa percepção pode despertar certa angústia quando observamos que, por algum motivo qualquer, estamos estagnados. Podemos pensar que, "Mais um ano se passou e nada aconteceu. Mais um ano está chegando e eu não sei o que fazer."

3. Existe um trocadilho muito importante na passagem do tempo. A cada ano novo temos mais tempo na nossa história e menos tempo para aproveitá-la. Ela está esticando e cada vez mais fica próxima do rompimento. Somos convocados para encarar a finitude com as festas de fim ano.

4. Ainda existe o campo que se abre diante de nós com o passar dos anos. O novo. O desconhecido. O mistério. A possibilidade de mudança. Para alguns, esses sãos aspectos assustadores. 

Seria ótimo se aproveitássemos esse momento de sensibilização e auto reflexão para procurarmos apoio psicológico. São nessas circunstâncias onde nos mostramos disponíveis a repensar e questionar nossos comportamentos que a psicoterapia pode ajudar a facilitar e potencializar esse movimento de transformação. Que nesse ano novo sejamos tocados e passemos a olhar para a vida com mais consciência e propriedade.

Facebook: https://www.facebook.com/psicoterapiafalemais
Instagram: @psicoterapiafalemais

sábado, 28 de novembro de 2015

Onde está o teu desejo? Reflexão sobre o processo de auto-descoberta e apoderamento.

Nascemos e crescemos. No meio de tudo isso, desejamos. O desejo é uma lição que aprendemos ao longo da nossa história. Sim, o desejo precisa ser aprendido. Quando somos bebês nossas vontades ainda não possuem sentido lógico e são puros movimentos, puras atitudes, sentimentos sem palavras. Aos poucos ganhamos sentido e o sentir se torna consciência de um querer

Nosso querer é livre, é voraz e destemido. O mundo, na maioria das vezes, não suporta essa força, e assim, somos domados. Aprendemos limites. Aprendemos aceitação e respeito. Aprendemos também a negação, a fuga e a alienação. Aprendemos o esquecimento, a anulação e o refreamento. Somos adestrados.

Vejo diariamente na clínica pessoas que tiveram seus desejos roubados de si. Elas compreenderam bem a moral que diz "Pensar em si mesmo e realizar suas vontades é egoísmo e isso é errado, é feio e pecado". Hoje são adultos que não sabem o que querem e se desesperam na tentativa de sempre estarem disponíveis aos outros. 

Vejo pessoas que criticam o modo de vida alheio, mas não fazem ideia do que estão fazendo com a sua. Estão estagnadas. Desencontradas. Perderam-se a muito tempo quando acreditaram que era necessário satisfazer a vontade do próximo para se fazerem amados, desejados.

Quando se nega a uma criança a validação e reconhecimento de seu desejo se nega a criança inteira. Nossos desejos expressam a autenticidade da percepção que temos sobre o mundo e as pessoas. Negligenciar isso é sufocar nosso mais puro meio de expressão pessoal. É limitar nossa criatividade e poder de inovar sobre o "destino".

Discute-se que precisamos impor limites para as crianças, e eu concordo, porém quero deixar claro que limites e sujeitos conscientes de seus desejos não são coisas opostas e discordantes. É absolutamente possível, e lógico, ter noção de suas limitações e do mundo, e afirmar suas necessidades e paixões. Ambas são facetas de um mesmo processo que é o desenvolvimento saudável da personalidade. É no limite, na falta, que a necessidade revestida de vontade poderá surgir e se firmar. É na limitação que encontramos estratégias para a realização de nossos objetivos como também nasce a motivação para buscar algo. Pense, como notamos a motivação dessa nova geração que é amplamente assistida e satisfeita de imediato?


Revelam alguns teóricos que estamos vivendo na era da falta de limites, porém observa-se que o número de jovens incapacitados para suportarem/lidarem com as adversidades da vida cresceu. Estamos educando jovens limitados emocionalmente. Precisamos aprender a desejar. Somente conscientes do nosso querer conheceremos a nós mesmos, seremos responsáveis pela construção de nossa história, estaremos abertos para relações com trocas autênticas, despertaremos para a busca de nossa satisfação e teremos capacidade para suportar e ultrapassar as frustrações. 


Precisamos aprender a desejar. E isso ocorre lá no começo, meio e fim da vida. Onde está o teu desejo? É fácil e simples desejar. Não deixem que lhe enganem quanto a isso. Difícil é assumi-lo. Reencontra teu desejo, e assim, reencontrarás a vida.


Fotos: Jackie Monteiro. Ilustradora/Artista Plástica.
www.jackiemonteiro.com.br

sábado, 21 de novembro de 2015

Sobre sonhos e coragem.

Desculpa-me mamãe.
Não pude realizar teus desejos.
É que eu quis mais.
Eu quero mais.

Teus sonhos, mamãe,
eram firmes e seguros,
mas a mim cabia sonhos encantadores.
Sonhos arriscados e com tons de inocência.

Eu sei, querida mãe,
que tu só queres o meu bem.
Eu sei.

Porém, ficas aí,
com teus sérios planos e estratégias.
E deixe-me cá,
a rir das minhas ingenuidades.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Composição.

Corpo eu sou
e sou palavra também.

Sou toda palavra que me lançaram durante a vida.
Sou todo toque que me depositaram enquanto história.

Sou o choro sufocado de minha mãe
e sua alegria escancarada.

Sou a presente ausência de meu pai.
Sou os ciúmes de meu irmão.

Sou os meus nós e laços.
Sou toda abraço.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Aleluia.

Ali, deitada de cara ao chão, te perdoei pela ausência, pelo vazio e pela saudade.

Ali, de cara ao chão, me perdoei pelo não, pela despedida e pela saudade.

Chorei todas as nossas distâncias.

Adeus pai.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que aprendi na escola? - Sobre o trabalho da psicologia escolar e educação.

A escola é ambiente de aprendizagem e crescimento. Todos os dias crianças e adolescentes se dirigem a escola e passam grande parte do tempo nesses locais aprendendo e se desenvolvendo. Ok, isso todo mundo sabe e ninguém nega. Porém, mais do que aprender os conteúdos das matérias, mais do que saber sobre português, matemática, história e tantas outras disciplinas, os alunos vivem e experimentam a vida nesses ambientes. Hoje, trabalhando como psicóloga escolar percebo, mas do que na época que fui estudante, a relevância de se ampliar a reflexão sobre o papel da educação escolar na vida dos jovens. 


Trabalho com adolescentes do 6º ano do ensino fundamental anos finais até a 3º série do ensino médio. Convivo com eles diariamente. Divido experiências. Compartilho sentimentos. Diferentemente da clínica que apenas vejo o cliente um dia na semana por 45 minutos, passo a manhã inteira com esses jovens conversando sobre variados temas. Somos mais próximos. Temos uma vinculação completamente diferente daquela realizada no ambiente do setting terapêutico. As vezes realizo escutas na escada, no banquinho da entrada, no chão da quadra, em frente ao banheiro, no meio da sala de aula e tantos outros cantinhos onde possa haver a necessidade de simplesmente falar sobre algo que não seja equação ou conjugação verbal. Tem vezes que apenas um olhar ou um cafuné na cabeça parece legitimar uma presença, fortalecer um ego. Em alguns momentos (na verdade vários) recebo abraços, risos e comprimentos, e esses energizam meu dia e o deles também. 

Atualmente vivemos numa época onde a performance, a competitividade e a cobrança por uma eficiência impecável perpassam nossas relações e o modo como encaramos nossas atividades e personalidades. Os adolescentes exigem de si (são exigidos) graus de excelências massacrantes. É doloroso as vezes ver a rotina de estudos que se submetem (são submetidas) crianças/adolescentes de onze anos. Esses jovens são alunos com notas maravilhosas e também frágeis emocionalmente, inseguros, ansiosos, excessivamente exigentes, agressivos e não percebem limites. São meninos e meninas que possuem boletins com notas impecáveis, mas que não podem ouvir um não ou que não sabem aceitar que seu colega não queria fazer algo que lhe foi solicitado. Porém, a vida não é nada simples e muito menos a escola.


Uma adolescente que tira apenas notas acima de 8 recebe seu primeiro 6. A professora passa na minha sala pedindo pra que eu vá falar com ela, pois a adolescente está chorando muito depois que recebeu a prova. Imagino de imediato "Já sei. Foi baixa" e pergunto isso a profissional; ela me diz, "Nada, foi um 6". Eu lhe digo " Ah, mas isso basta." E vou procurar a jovem. Quando a vejo ela está muito mal, a levo para a sala e ela chora, ela treme e tem a prova completamente amassada nas mãos. Pergunto-lhe o que houve e a jovem desamassa a prova e diz que tirou uma nota baixa e não consegue se conformar com isso. O mais tocante em tudo isso é que a dor e a vergonha são tão grandes que ela não consegue olhar para a nota e me mostra a prova com a parte do papel que contém o seis ainda amassada, sem possibilidade de ser vista. Nesse momento vejo o quanto a situação é delicada e fruto de imenso sofrimento.

Permito que ela chore sua decepção, que ela lamente a quebra de sua auto/hetero idealização e reafirmo para ela o quanto a vida não se trata de justiça e por mais que a gente se esforce, as vezes, as coisas não acontece como imaginávamos e não há nada que possamos fazer a não ser continuar e saber que os erros e frustrações fazem parte do percurso. Em nenhum momento pensei em lhe dizer " É apenas um 6. Veja não é tão ruim assim. Você supera fácil". Geralmente, temos o costume de menosprezar o sofrimento alheio quando ele não faz sentido para nós. Admito que tirei muitos 6 (e até menor que isso) na minha época escolar, mas ali não se tratava de mim e nem do modo como eu percebia a situação. Essa era a vivência dela e doía de uma modo visceral. Era angustiante ver o quanto ela se lamentava e como isso arrasou sua auto confiança. Vai ser preciso tempo, vai ser preciso coragem e paciência para que ela ultrapasse esse baque. Existem coisas na nossa vida que não podemos mudar, só podemos ultrapassar. E esse tipo de aprendizagem fundamental para a vida em sociedade, para a existência humana, a escola pode e deve proporcionar. A educação escolar não está de modo algum longe dessas questões.


Depois conversei um pouco com a professora sobre a situação e notei que ela ficou um pouco preocupada e ai eu lhe disse, "Não fique preocupada. Ainda bem que ela recebeu essa nota baixa. Que bom que a escola pôde proporcionar a ela esse tipo de aprendizagem. Isso é importantíssimo. Eles precisam aprender que na vida não se pode viver sem passar por situações de frustração. Agora vamos cuidar do sentido que ela/eles vão dar para isso". Na escola aprendemos sobre a vida, pois a vida não se divide e nem espera que saíamos pelo portão do colégio pra começar a se fazer presente e soberana. O que precisamos é saber como utilizar esse conhecimento de modo a fortalecer os jovens e não massacrá-los e fragilizá-los mais ainda. Essa foi uma importante lição para a pequena e para mim também.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

As pessoas costumam dar asas a sua imaginação.
Eu? Eu prefiro dar asas aos meus afetos.
Gosto de pensar que minhas emoções flutuam libertas.
Não há nada que as prende.
Não há nada que as dome.
Meus sentimentos são passarinhos
que passam sem pestanejar por corpos e seres.
Meu desejo não tem freios e que assim seja.
Que ele jamais seja reprimido a um só coração.
É bom demais amar para ser comprimido e espremido a anseios alheios.
Quanto mais solto, mas vontade de permanecer.
Eu gosto de pensar que meus afetos têm asas
e que não estão em gaiolas.
Eu gosto de amar.

O céu que arde na terra.

Celeste nasceu em noite estrelada. Filha única de um casal maduro que já havia perdido a esperança de procriar. Celeste nasce como um milagr...